O conto da Rainha de olhos Carmesim


O Conto da Rainha de Olhos Carmesim

Então, surgiu de uma gota de sangue dourado pingando no vazio da imensidão escura. E a escuridão era abundante. Inesperadamente, dali surgiu, subindo, escalando pelas paredes do vazio, uma flor-de-sangue. E a flor estava cheia de vida, ainda pingava magia. Do pólen vermelho surgiu o mundo, e ele era bonito. Tão interessante e formoso.
Duas criaturas pequenas cresceram repentinamente da terra, uma vermelha e a outra branca. Ambas se apaixonaram e, juntas, criaram um novo ser, pequeno e frágil. Era uma criança branca. As duas criaturas, assustadas com seus olhos vermelhos, pereceram subitamente de pavor.
Essa criança cresceu ainda mais formosa, porém sentia-se tão solitária naquele mundo vasto e desconhecido. Caminhou pela face da terra e ficou surpresa ao descobrir que havia outros como ela. No entanto, ainda eram diferentes. Eram criaturas sem graça, vindas diretamente da lama. A condenaram ao notar suas diferenças — a pureza de sua aparência incomodava seus olhos. Assim, foi forçada a viver só mais uma vez.
Muito tempo se passou, e uma pequena sociedade surgiu ali, entre a floresta. As criaturas da lama se denominavam “humanos” e criaram até mesmo sua própria língua. A pequena criatura branca observava atentamente cada passo dos humanos. Mas apenas observar a condenava à tristeza, pois sua solidão era imensa.
Então, em desespero, cortou-se, tentando pôr fim à própria vida. No entanto, não conseguiu. Foi então que percebeu que o líquido escorrendo de seus braços fez nascer novas criaturas na terra. Seis delas eram brancas como ela e, pela primeira vez, não se sentiu mais tão só.
 
  
 
 
 
Parte 02
 
 
 
 
A mãe branca se tornou rainha daquelas seis pequenas criaturas. E ela estava contente... Como estava! Mas queria se comunicar com elas, apenas não sabia como. Com esperança, levou suas crianças até o vilarejo dos humanos, apenas para observá-los. Talvez pudesse aprender com eles, pois se davam tão bem entre si.
Mas algo terrível aconteceu. Três de seus filhos devoraram duas das criaturas de lama. Ela ficou aterrorizada, percebendo como os humanos eram frágeis. Então, ordenou que seus três primeiros filhos devorassem os outros três. E eles obedeceram — e adoraram. 
Ela se juntou a eles e se alimentou dos humanos restantes, sentindo um prazer indescritível ao adquirir seus conhecimentos através do sangue. Logo percebeu uma forma de se tornar cada vez mais forte. Nomeou seus três filhos: Mikamar, Jorefar e Vladkar. Suas crianças eram ambiciosas e desejavam total controle sobre os humanos. E ela, como uma boa mãe, deu a eles exatamente o que queriam.
 
 
 
Parte 03
 
 
Com o passar do tempo, dois desses filhos tiveram outros filhos, e esses filhos tiveram mais filhos. As criaturas brancas tomaram o controle daquele mundo, enquanto as de barro foram aprisionadas. Seu sangue era valioso, pois, graças a ele, os brancos possuíam poder e se tornavam cada vez mais fortes.
A rainha reinava absoluta, tendo apenas a companhia de seus três preciosos filhos. Porém, chegara a hora de partir.
Então, ordenou:
— Saciem-se, crianças. Tomem a mim e deixem que sua mãe viva através de vossos olhos carmesim. Meu sangue é tão puro… Cada gota é digna de vós. Bebam e governem o que é de vosso direito!
Ela se entregou de braços abertos a seus três amados filhos. E eles beberam. Cada um ficou forte e poderoso à sua maneira.
Mikamar guiou seus descendentes e construiu seu próprio império. Jorefar desejava entender como cada parte daquele mundo e daquelas criaturas funcionava, nutrindo uma grande curiosidade sobre os seres de lama. Já Vladkar deixou que seus pés o levassem mais longe do que qualquer um de seus irmãos jamais poderia ir. Queria desbravar, conhecer tudo o que aquele mundo tinha a oferecer. Apenas não contava com algo inesperado: apaixonar-se por uma dessas criaturas de lama.
 
 
Parte 04
 
 
Banhando-se nas águas cristalinas sob o brilho da lua, foi assim que encontrou seu amor. Ele se encantou com a beleza daquela jovem, era a filha de um líder humano. Eles viviam muito longe do “começo do mundo” e acreditavam estar protegidos, seguros de serem encontrados pelas criaturas brancas, que agora se autodenominavam vampíricos.
Sem medo, Vladkar aproximou-se da jovem para conhecê-la. O sentimento desconhecido que o impedia de consumi-la era tão estranho para ele que sentiu necessidade de ir mais fundo e descobrir o motivo.
— Tão bela criatura és… Não me conformo ao ver tamanha pureza em vosso olhar. Como pode? — Ele se maravilhou.
— Apartai-vos daqui. Não é vosso lugar. — A jovem encolheu-se nas águas.
— Não a machucarei, senão já o teria feito. Porém, estou intrigado contigo. — Ele estendeu a mão, esperando pelo toque das peles.
— Deixai estas terras ao amanhecer, antes que tenha problemas. — Ela se virou de costas e partiu.
Vladkar, ainda tomado pela curiosidade, decidiu segui-la até seu vilarejo, onde se escondeu.
 
 
Parte 05 
 
 
Numa noite silenciosa, a jovem saiu para buscar água no poço, sem imaginar que um homem de seu vilarejo a espreitava nas sombras. Antes que pudesse reagir, foi atacada e ferida. Sentindo sua vida esvair-se de seu corpo, viu-se à mercê do destino. Mas então, Vladkar, que sempre estivera à espreita, surgiu das trevas.
Sem hesitar, ele devorou o homem mau, sentindo um prazer inesperado ao fazê-lo. O sangue imundo da criatura de lama escorreu por seu queixo e manchou seu torso. O corpo sem vida tombou aos seus pés, a alma miserável sugada até o último suspiro.
— O que fizestes? Por que me salvou? — A jovem sussurrou, ainda assustada.
— Não poderia permitir que uma criatura tão pura perecesse pelas mãos de um ser tão imundo. — Vladkar limpou o queixo e, num movimento abrupto, agarrou-a. Seu olhar fixou-se num corte recém-feito na bochecha da jovem.
— Não vos aproximeis de mim! — Ela se debateu em seus braços.
Vladkar não resistiu. Precisava provar o sangue daquela criatura. Com um gesto ágil, lambeu sua bochecha e ficou maravilhado.
— Não entendo… Como o teu sangue pode ser tão diferente do dele, se ambos são criaturas da lama?
— Imploro que poupe minha vida! Não posso perecer e deixar meu pai só!
Vladkar não compreendia. Como ela podia preocupar-se tanto com o homem que lhe deu a vida? Ele mesmo não sentiu nada quando sua mãe partiu. Aquela garota era tão intrigante que, mais uma vez, não conseguiu tirar-lhe a vida.
Ao soltá-la, a jovem correu para longe, e Vladkar, ainda à espreita, permaneceu observando. Esperava por uma nova oportunidade de, enfim, consumi-la.
 
 
Parte 06
 
Vladkar passou muitos anos observando a garota, fascinado por sua existência e aprendendo cada vez mais sobre aquela espécie intrigante. Desejava se aproximar dela novamente, mas a segurança no vilarejo havia se fortalecido desde a morte do homem.
Shiar nunca revelou o que realmente aconteceu naquela noite. No entanto, sua mente permanecia inquieta. Ela se perguntava sobre a criatura branca que salvara sua vida. Seriam mesmo os vampíricos tão monstruosos quanto diziam?
Às vezes, questionava seu pai sobre essas criaturas.
— Não discutirei novamente a respeito disso, Shiar.
— Mas, meu pai, talvez não sejam realmente tão terríveis assim. Apenas… talvez não saibam como socializar conosco, não entendem costumes e sentimentos...
— Nunca iremos nos aproximar deles! — O homem bateu o punho contra a mesa. — Eles são cruéis e sem sentimentos! Estão mortos por dentro e não sentem nada além de uma fome insaciável por nosso sangue! Abomino qualquer um que confie neles.
— Não somos tão diferentes assim… Eu lhe contei o que houve comigo…
— Acredite, Shiar. Eles conseguem ser piores.
Shiar suspirou, encerrando a conversa. Ela sabia que insistir não levaria a lugar algum. No fundo, nem mesmo ela tinha certeza do que pensar. Não conhecia o suficiente sobre os vampíricos para defendê-los.
Mas logo, muito em breve, iria descobrir.
 
 
Parte 07
 
 
Numa noite silenciosa, Vladkar passou do limite. Sem fazer um ruído, entrou nos aposentos de Shiar. Estava cansado de esperar. Havia três anos que desejava matá-la, e a demora o irritava. Ele odiava ficar parado, pois sua sede de conhecer o mundo era imensa. Para ele, a garota não passava de um obstáculo. Enquanto não se livrasse dela, não poderia tirá-la da cabeça.
Aproximou-se de sua cama, onde ela adormecia tranquilamente. Suas presas se alongaram, afiadas, enquanto ele se inclinava sobre seu alvo, mirando seu fino pescoço. Estava prestes a cravá-las, mas então hesitou. Um aroma adocicado emanava da pele da jovem. Por um instante, permitiu-se sentir.
Esse momento de vacilo custou-lhe caro. Sentiu o frio do aço pressionar seu pescoço.
— Não sabes quanto tempo esperei pelo momento em que entrarias no meu quarto… — sussurrou Shiar, pressionando a lâmina contra sua pele, ameaçando perfurá-lo.
— Mate-me. Faça o que não consegui fazer contigo.
— Cala-te. Não quero matar-te… Mas farei se não houver outra escolha. Responda-me: o que quer comigo? Por que me persegues tanto?
Ele estreitou os olhos, lutando contra a resposta que teimava em escapar de seus lábios. Mas era como se ela tivesse um poder hipnótico sobre ele. Por fim, cedeu.
— Tu não sais da minha cabeça desde que te conheci. Preciso saber o que fizeste comigo. Enquanto não me livrar de ti, não poderei ir embora.
Shiar permaneceu em silêncio. Queria duvidar de suas palavras, mas havia algo nelas que parecia sincero. Sem perceber, seus dedos afrouxaram a faca.
— Eu te enfeiticei com uma magia muito poderosa. Por isso não podes viver longe de mim.
Ele rangeu os dentes, furioso.
— Impossível! Não há como uma criatura tão fraca ter tamanho poder sobre mim!
— Se não é verdade, então mate-me.
Vladkar segurou seu pescoço com força, determinado a quebrá-lo. Mas, novamente, não conseguiu.
— Veja por si mesmo. Simplesmente não consegues.
— E que magia é essa que ousaste lançar sobre mim? — afrouxou o punho.
— Chama-se paixão…
— Paixão? — Ele franziu a testa. Não sabia absolutamente nada sobre isso.
— Sim. Tu te apaixonaste por mim.
— E o que é essa paixão? Por que não consigo matar-te?
— É uma maldição à qual os humanos sempre estão sujeitos. Agora, tu também estás amaldiçoado por esse feitiço.
Shiar estava blefando. Inventava mentiras sobre o amor, pois sabia que Vladkar e os vampíricos nunca haviam compreendido esse sentimento humano e poderoso. Mas ele logo aprenderia — com ela ao seu lado.
Desde aquele momento, passaram muito tempo juntos. A cada dia que se passava, Vladkar aprendia mais sobre os humanos, sobre como viviam e como pensavam. As amarras invisíveis em seu coração faziam-no acreditar que jamais poderia deixar Shiar. E ela aproveitou esse tempo para domesticá-lo, ensinando-lhe sobre sua cultura e, ao mesmo tempo, aprendendo sobre a dele.
No entanto, a sede de conhecer o mundo fazia com que Vladkar se inquietasse. Queria explorar, desbravar o desconhecido. Mas, dessa vez, não queria mais ir sozinho.
Estava decidido. Iria roubar Shiar e levá-la consigo até a beira do mundo.
 
 
Parte 08
 
 
Vladkar se aproximou por trás de Shiar, no bosque onde se encontravam todas as noites. Queria finalmente fazer o pedido e, independentemente da resposta dela, a levaria à força consigo.
— Venha comigo. Vamos fugir juntos. Vou te mostrar o mundo e farei de ti a nova rainha dele.
— Não posso, Vladkar.
— Não me deixas outra escolha. Se não vieres comigo por bem, será por mal.
— Não posso ir a lugar algum. Este é o meu lar. Deixe-me aproximá-lo do meu pai.
— Estás louca? Ele certamente me desaprovará... e me matará.
— Ensinei tudo sobre nós a ti. Ele verá que aprendeste muita coisa. És um de nós agora.
— Não sou como vós. Sou diferente... Assim como minha mãe era. E vós, humanos, a isolastes primeiro.
— Tiveram medo, é diferente. Agora eu conheço vós. Nossas espécies podem se dar bem.
— Isso nunca dará certo. Não há como nossas espécies conviverem em harmonia.
— Bem, talvez haja uma maneira de unir as duas nações... — Ela tocou o rosto de Vladkar com delicadeza, aproximando-se de seu corpo.
— O que fazes? Por que me tocas assim? — Ele sentiu a respiração dela cada vez mais próxima.
— O que farei agora é apenas uma das formas como nós, humanos, demonstramos afeto.
Vladkar estremeceu. Não estava preparado para o que viria a seguir — e tampouco para o quanto iria gostar.
Shiar encostou os lábios nos dele, e suas línguas se encontraram em um toque suave e intenso. Vladkar ficou paralisado. Nunca havia experimentado algo assim. Questionava-se por que aquilo o fazia se sentir tão bem... e por que desejava mais.
Algo nele cedeu. Subitamente, se entregaram um ao outro, completamente. Vladkar nunca havia feito nada parecido, mas, para ele, tudo parecia certo, como se cada coisa estivesse em seu devido lugar.
Shiar guiava suas mãos pelas curvas do próprio corpo, permitindo que ele a conhecesse centímetro por centímetro. E, naquele momento, Vladkar percebeu que não havia mais volta.
 
Parte 09 
  
Foi assim que Shiar conseguiu, pela primeira vez, unir as duas nações. Mas em segredo. Esperava a chegada de seu primeiro filho — o primeiro e único mestiço da Terra, uma criança nascida da união de ambas as raças. O que ela não imaginava era o perigo que carregava em seu ventre.
— Então... essa criança que estás esperando é uma junção de nós dois? — Vladkar perguntou, ao mesmo tempo curioso e preocupado. Já estava familiarizado com os novos sentimentos que lhe haviam sido apresentados.
— Isso mesmo. Mas não sei se dará certo... Meu pai ainda não sabe, e em breve não poderei mais esconder a barriga.
— Estás dizendo que essa criança crescerá dentro de vós... e depois virá ao mundo?
— Sim. É assim que a nossa espécie dá vida a novos seres.
— Estou horrorizado...
— Não se preocupe. Tenho certeza de que tudo vai dar certo...
Vladkar sabia que tinha pouco tempo antes de voltar ao início do mundo para contar a seus irmãos o que havia feito. Por ser como eles, tinha certo poder sobre os demais e esperava que entendessem seus sentimentos.
Mas, ao deixar Shiar sozinha e viajar ao encontro de seus irmãos, Vladkar ficou aterrorizado com o que viu no reino deles. Os humanos eram tratados como escravos. Antes, ele não se importava com a forma cruel como eram submetidos à servidão. Mas, depois de se aproximar tanto de um deles, ver as atrocidades que sofriam fez com que compreendesse o medo que nutriam por sua raça.
— Irmão, há quanto tempo não o vejo... — Mikamar se aproximou. — Quanto tempo se passou desde que partiste?
— Fazem quase seis anos, irmão.
— O que tens feito nesse tempo todo?
— Conheci muitos lugares... e fiquei em um deles por um tempo.
— Vejo que mudaste bastante desde que partiste. Mas dize-me, por que retornaste?
— Tenho um pedido a fazer.
— Pois peça.
— Os humanos... Por que os tratas assim? Deixe-os livres.
— Dar-lhes liberdade? E para quê?
— São criaturas mais interessantes do que pensas. Não posso mais vê-los sendo tratados dessa forma.
Mikamar riu do que ouvira.
— Estou falando sério. Uma nova era precisa começar.
— Irmão... Vós deveis estar há muitos anos sem beber o sangue dessas criaturas. Vou lhe oferecer uma taça, para lembrá-lo de quem realmente és.
Ele estendeu a taça repleta de sangue, mas Vladkar a lançou longe, controlando seus instintos.
— Não somos animais. E com certeza os humanos não deveriam ser tratados como um.
— Quem pensas que és para me dizer o que devo ou não fazer?!
— Irmão, não vim para brigar. Quero apenas que libertes os humanos do teu império sangrento... e os trates como merecem.
— Nunca! Eles não são como nós!
— Isso não é verdade. Eles podem ser muito mais parecidos conosco do que imaginas.
— Por que estás defendendo tanto essa espécie suja?
Vladkar hesitou por um instante, mas então disse:
— Porque... uma delas espera um filho meu.
Mikamar ficou horrorizado.
— Vós... Vos unistes a essa raça imunda?! — Ele gritou, indignado.
— Sei o que parece... Mas eles não são tão horríveis assim.
— Eu não posso aceitar isso. Vós não sois mais meu irmão...
— O quê? Não diga bobagens!
— É lamentável que tenhais se tornado algo tão... sujo.
Mikamar então gritou por seus guardas. Vladkar foi capturado, e uma busca se iniciou por todo o mundo em busca da mulher e da criança mestiça que estava para nascer. O caos se espalhou e, na brutalidade da perseguição, inúmeras mulheres humanas foram mortas.
 
Parte 10
 
 
Ao saber do que estava acontecendo, Vladkar começou a enlouquecer. Longe dali, Shiar temia pelo filho que nasceria em poucos meses. Não tinha outra escolha senão adiantar o parto antes que os vampíricos descobrissem seu vilarejo.
No entanto, seu pai estava cada vez mais desconfiado. Curioso sobre a gravidez da filha, confrontou-a:
— Filha, este homem não voltará!
— Ele vai, meu pai! Prometeu-me...
— Deves matar essa criança antes que o vilarejo pense que foste desonrada.
— Não farei isso! Ele voltará, eu lhe asseguro...
— Não seja tola!
— Essa criança é nossa única esperança! Não vou matá-la! Ele é teu neto... Por favor, respeite-o!
O homem olhou para a barriga da filha, angustiado, temendo pela segurança dela e de todo o vilarejo.
Enquanto isso, preso no calabouço de Mikamar, Vladkar arquitetava uma fuga. Sua única esperança era seu irmão Jorefar. Pediu então a um dos presos que espalhasse uma mensagem até que chegasse aos ouvidos dele.
A mensagem levou tempo para alcançar Jorefar, mas, ao recebê-la, ele não hesitou. Foi até o império de Mikamar e, com a ajuda de seus descendentes infiltrados no palácio, conseguiu libertar Vladkar. No entanto, essa liberdade custou sangue. Para governar aquele mundo e salvar os humanos, Vladkar não viu outra opção senão matar seu próprio irmão.
— Não posso acreditar que traíste tua família assim... — Mikamar murmurou ao sentir o punhal dourado perfurar seu peito.
— Nunca fomos realmente uma família... Talvez tivéssemos sido, se tivesses aceitado meu pedido. Eu adoraria que conhecesses meu filho... Mas jamais o verás. Por tua própria ignorância.
Vladkar retirou o punhal e o jogou aos pés do irmão agonizante.
Jorefar assistiu à cena em silêncio. Embora tivessem nascido do mesmo sangue, nunca tiveram uma ligação verdadeira — apenas laços de sangue, vazios de afeto.
— Agora, como novo rei, declaro: os humanos estão livres.
E assim foi feito. Todos os humanos sob domínio dos vampíricos foram libertos. Vladkar sabia que uma nova sociedade levaria tempo para se reerguer, mas aquele era o primeiro passo.
Quando enfim retornou ao vilarejo de Shiar, Vladkar não voltou de mãos vazias. Levou ouro e tesouros — tudo o que os humanos pareciam valorizar. No entanto, a notícia que recebeu ao chegar o transtornou: Shiar não sobrevivera ao parto.
Agora, as amarras de seu coração estavam presas a uma nova criatura — seu filho. E Vladkar jurou protegê-lo até o fim de seus dias.
Muitos anos depois, uma nova sociedade surgiu, liderada pelos Quatro Grandes Conselhos. Todos os líderes eram netos de Jorefar.
Após muito tempo, Vladkar, cansado da solidão, se permitiu perecer. E, assim como sua mãe antes dele, seu filho consumiu seu sangue, perpetuando sua essência. Dessa forma, Vladkar viveria para sempre — não em carne, mas através dos olhos de seus descendentes.
 
 
 
O fim.
 
 
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Esse foi um dos capítulos espéciais da novel de (Flor de Sangue!)

É um conto que resume a história do mundo dos vampíros.





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