9 - Sombra de Bruce

 
Eu tinha sete anos quando minha vida começou a desmoronar. Minha mãe, Martha Wayne, estava doente havia algum tempo. Os médicos falavam em termos técnicos, diagnósticos complexos, mas eu só via a mulher forte e gentil que costumava cantar para mim antes de dormir, se transformando em uma sombra de si mesma.

A cada dia, seu sorriso ficava mais fraco, seu olhar mais distante. Passou os últimos três anos de vida presa a uma cama, respirando com dificuldade, com a pele pálida e os olhos sempre cansados.

Eu me lembro do cheiro do quarto dela. Do som dos aparelhos. Do jeito como Alfred sempre entrava em silêncio, com o rosto tenso, como se quisesse não fazer barulho no meio de um cemitério. Eu passava horas ali, lendo para ela. Histórias de heróis, de mundos distantes, de reinos encantados. Histórias onde o bem sempre vencia. Às vezes ela ria, uma risada leve, embargada pela tosse. Essas risadas viraram meu tesouro. Porque, no fundo, eu sabia. Eu sabia que ela estava indo embora. E não importava quantos contos eu lesse, não haveria final feliz para ela.

Quando ela morreu, foi como se metade do meu mundo tivesse desaparecido. A metade que era quente, amorosa, suave. Meu pai tentou manter tudo de pé. Era um homem ocupado, mas não me deixava sozinho. Criou uma rotina comigo. Tentava compensar a ausência da minha mãe. E, de certa forma, por um tempo, funcionou. Mas a dor... a dor ainda estava lá.

Dois anos depois, no meu nono aniversário, meu pai resolveu me levar ao cinema. Queria me ver sorrir, me distrair. Lembro de tudo com uma nitidez perturbadora. O filme era a adaptação de uma animação antiga, que ele dizia ter visto quando era jovem. Rimos juntos, comemos pipoca. Ele até comprou aquele chocolate que eu gostava, mesmo sabendo que Alfred desaprovava. Na saída, meu pai me envolveu com o casaco dele, enquanto caminhávamos para o carro.

Foi quando tudo aconteceu.

O carro foi cercado. Três homens. Roupas escuras, armas nas mãos, e gritos. Um deles arrancou meu pai do banco do motorista. Outro me puxou com brutalidade. Meu coração batia como um tambor ensandecido. Meu pai tentou me proteger, se colocou na frente, queria me passar segurança.

— Calma Bruce... eles só vão levar o nosso carro.

— Pai, eu tô com medo... — murmurei, olhando para ele.

Um dos homens olhou para ele por um tempo que pareceu uma eternidade para mim.

— Tenha calma, leve o carro. — meu pai disse, sua voz levemente trêmula. — Não vamos reagir, apenas não nos machuque...

— Ei, eu acho que conheço você... Esse cabelo mais branco que os demais... — Um dos ladrões olhou de novo para ele... e reconheceu. — Vejam só, é Thomas Wayne com seu filho Bruce, esse cabelo é inconfundível. Você é um maldito bilionário, se acha dono dessa cidade. — disse rindo. — O médico dos pobres, a "esperança viva de Gotham"... Que piada.

Havia algo diferente naquele olhar. Algo pessoal. E antes que eu pudesse entender, ele atirou. Um tiro, direto no peito. Meu pai caiu em um baque surdo. E eu caí junto, segurando sua mão, sentindo o calor do sangue dele se espalhar. Os homens fugiram no carro. Deixaram o corpo. Me deixaram lá.

— Não!... Pai! — segurei a mão dele com firmeza, meus dedos tremendo.

Ele cuspiu sangue, parecia estar se afogando.

— Bruce... Bruce... — ele lutava para não se afogar no sangue. — Seja forte... Seja... Forte.

— Socorro! Alguém ajude! — gritei. — O meu pai precisa de ajuda! — olhei ao redor gritando mais alto do que podia.

Pessoas vieram, ficaram chocadas, mas chamaram a ambulância.

— Pai, por favor fique comigo...! Aguente firme...! — falei durante os soluços, rangi os dentes. — Não me deixe sozinho!... eu não quero ficar sem você, não me deixa... não me deixa!... —solucei, um gosto amargo se espalhou na minha boca.

Fiquei lá com meu pai até a ambulância chegar. Senti o pulso dele falhar. Os olhos se apagarem quando o coração falhou a batida. E soube. Eu estava órfão.

A partir daquele momento, Alfred se tornou tudo. Mordomo, tutor, figura paterna. Mas também era rígido. Me ensinou a nunca demonstrar fraqueza. A guardar a dor e demostrar um lado vulnerável apenas a quem fosse de confiança. Ele me educou em casa, longe dos olhares da imprensa, longe dos sussurros de pena.

Cresci entre livros, diversas artes marciais, filosofia com os melhores tutores, administração. Cada disciplina era uma ferramenta. Cada conhecimento, uma preparação. Gotham não era uma cidade segura, e eu sabia disso melhor do que ninguém. Quando me formei, assumi a WayneCorp. Coloquei o terno. Sorria nas entrevistas. Cumprimentava acionistas. Fingia ser o herdeiro perfeito que todos esperavam. Mas à noite... eu era outra coisa.

Algo... verdadeiramente sombrio...

O luto nunca passou de verdade, e logo se transformou em um propósito. Vesti uma máscara com um capuz. Não apenas para esconder quem sou, mas para me tornar aquilo que a cidade precisava: um símbolo. Alguém que pudesse enfrentar o que a polícia não ousava. Que encarasse os políticos corruptos, os maníacos, os assassinos. Fiz da escuridão meu reino. E do medo alheio, minha maior arma.

Eu era temido, eles temiam as sombras...

Temia que eu estivesse lá... E eu estava.

Sempre estava.

Gotham é uma cidade doente. E eu sou o remédio amargo.

Criei o Batman para enfrentar o que tirou minha infância. Para garantir que nenhuma outra criança veja o que eu vi, passe pelo que passei. Cada noite é uma guerra que estou determinado a sempre vencer. Para cada inimigo que enfrentei, dei poucas chances, ou eles mudavam na marra, ou sofreriam as consequências. Eu seria a sentença final, e o carrasco se necessário.

Durante muitos anos, mantive as pessoas à distância. Sair com modelos, atrizes, socialites... fazia parte do teatro, Bruce sempre foi a minha máscara. Uma distração pública, uma imagem superficial de um playboy que gastava sem se preocupar com nada. Mas ninguém realmente me via... Não de verdade.

Até ela aparecer.

Selina Kyle. Mulher-Gato. Ladra, justiceira e caos puro. Cruzamos caminhos nas sombras. Ela era tão ágil quanto imprevisível, tão fascinante quanto perigosa. E... Inesquecível. Nunca conheci alguém como ela. Ela me desafiava, provocava, escapava entre meus dedos como areia, e talvez eu tenha deixado algumas vezes... As noites violentas e perigosas de Gotham passaram a ser mais interessantes quando ela resolvia agir.

Selina enxerga o que outros não veem. Talvez porque também carregue suas próprias cicatrizes... De alguma forma éramos semelhantes, mesmo que de mundos opostos. Mesmo estando em lados diferentes na interpretação de "justiça".

Ela me conheceu primeiro como Batman. Depois, aos poucos, como Bruce. E nos tornamos bons amigos.

Eu já havia investigado sobre ela, sua identidade, passado. Trajetória de vida, mas... havia buracos em sua infância, e nem mesmo eu, pude descobrir absolutamente tudo. Mas eu sempre soube que algo estava errado. E acreditava que era só questão de tempo até descobrir.

Quando ela apareceu naquele leilão, foi uma surpresa interessante. No início me aproximei apenas para saber suas intenções, mas o que vi nela... Foi diferente do que eu esperava. Ela não era apenas uma cleptomaníaca qualquer... Ela tinha muita personalidade e um jeito diferente de ver o mundo.

Mas sua Cleptomania era um obstáculo entre nós dois. Um obstáculo que eu detestava.

Tentei convencê-la a mudar. Dei incontáveis chances, como Batman — mais chances do que jamais achei ser possível de se dar a alguém. Mas Selinne sempre acabava caindo nos mesmos erros. E eu sentia que o abismo entre nós crescia cada vez mais.

Como Bruce, seu amigo. Eu podia protegê-la de dia. Pagar suas dívidas, quitar suas finanças e apagar os vestígios que sua falta de experiência deixava...

— O senhor está falando sério? — perguntou um gerente. — Vai comprar essa loja porque sua amiga roubou?

Estávamos a sós no escritório de uma boutique, comprávamos presentes para Alfred. Peças de primeira mão, exatamente como seu estilo britânico exigia.

— Sim. — puxei o cheque. — O senhor disse que está disposto a ir à polícia, denunciá-la por furto...

— S-sim, eu disse.

— E estou comprando essa loja, e dando um dinheiro extra para te manter de boca fechada. — coloquei o cheque no bolso do terno dele e dei três leves batidas. — O senhor tem mais alguma reclamação a fazer?

Me levantei. Selina me esperava do lado de fora do escritório daquela loja. Ela não sabia, que eu sabia.

— Nenhuma... — respondeu o homem, a voz sem graça. — Senhor Bruce Wayne.

Suas mãos eram ágeis para as outras pessoas, mas não para mim. Eu via absolutamente tudo, cada joia sendo colocada em sua bolsa. Cada um dos itens que ela não precisava, mas que insistia em furtar.

Eu propositalmente a convidava para me acompanhar nas lojas, tinha esperanças de que ela lutasse contra o próprio impulso, mas isso nunca acontecia.

E me irritava profundamente.

Nunca fui tolerante com erros dos outros, sempre fui impaciente. Mas com ela... tudo era diferente.

— Bruce? — ela se levantou da cadeira e me olhou com aquele ar inocente. — Já terminou de pagar pelo presente do Alfred?

— Sim, podemos ir? — peguei a sacola com uma atendente e saímos da loja.

(...)

— Então a senhorita Selina continua furtando na sua companhia, hm? — disse Alfred, se aproximando. — Ah, se ela soubesse quem você é...

Fui até o computador e digitei no teclado. Naquela época o Duas caras estava dando mais trabalho que o Coringa. Então me mantive ocupado por um tempo.

Enquanto Selina roubava.

— Sim.

— Não acha que se o senhor pedi-la em casamento, será mais fácil de tratar a Cleptomania depois?

Apenas olhei para Alfred por um momento. Ele esperava a minha resposta.

— Não se trata de ser mais fácil... Quero que ela perceba o erro, que reconheça e que mude... Apenas dessa forma poderemos construir algo juntos. — voltei a digitar.

— Entendo.

E eu tinha uma certa pressa nisso. Mas ela não me ouvia. Nem como Batman, nem como Bruce. Era cabeça dura.

— Se o senhor continuar dando tantas chances para ela fugir... — Alfred murmurou. — Não acha que os outros Vilões... vão perceber?

Parei. Meu dedo mindinho tremeu sobre o teclado.

— Você... Está certo. — abaixei a cabeça.

— ... Então o que fará?

Apertei o punho, era uma decisão difícil. E eu sabia que ela dificilmente me perdoaria por isso... Mas acabei fazendo.

No momento em que ela roubou aquele banco eu soube que precisava agir.

Precisava entregar Selina a Gordon. Tentei convencê-la uma última vez... mas não funcionou.

— Você me traiu... — ela sussurrou para mim na sala de Gordon.

Vi tristeza e dor em seus olhos quando ela disse aquilo.

— Estou profundamente chateada.

Me senti culpado, até senti remorso por um tempo... Mesmo sendo a coisa certa a se fazer. Mas se eu quisesse que Selina mudasse... Precisava ser mais severo. E torcer... Torcer muito para que ela mudasse.

— Isso é para o seu bem.

Pulei a janela e ela gritou.

— Vai se ferrar, Batman!

Fui para a Batcaverna, e caminhei direto para os computadores. Alfred veio, o jornal da noite acabara de passar, anunciando a captura da Mulher-Gato. Gordon não vazou a identidade dela a meu pedido.

— Então o senhor entregou mesmo, a senhorita Selina... — Alfred disse cabisbaixo.

— Não tive outra escolha... — sentei na cadeira e olhei o monitor. — Se ela continuar nessa vida de ladra, vai acabar morta durante um plano mal executado...

Abaixei a cabeça e apertei os punhos. Estava feito.

— Ela quase morreu quando pulou daquele prédio... — Alfred olhou o monitor, onde a gravação daquele arranha-céu passava.

[...] — É alto! — gritei naquele momento, sua silhueta escura desaparecendo. — Mulher-Gato! — corri até o parapeito, vi seu corpo esguio caindo rápido a cada segundo. Considerei usar o gancho em torno de seu tornozelo, mas puxá-la seria fatal. Meu peito congelou e minha visão borrou, tudo o que pude fazer naquele momento era implorar que ela tivesse um plano, e que esse plano funcionasse. Quando aquele paraquedas estranho se expandiu, meus joelhos vacilaram e agarrei firme no parapeito, soltando o ar com força.

— Nem mesmo eu, teria feito aquilo sem me preparar antes... — olhei o monitor. — Ela foi impulsiva e ser impulsiva é o seu maior defeito...

— O que fará agora...?

— Torcer.

— Acredita que ela pode mudar?

Olhei para ele, queria dizer que sim. Mas seria uma resposta incerta, e me recusei a dizer.

— Ela precisa perceber todos os erros... O julgamento será logo, e acho que ela deve descobrir tudo que já fiz por ela... Como Bruce.

Olhei para o monitor novamente e congelei a imagem no rosto de Selina. Apenas com ajuda psicológica ela poderia ser tratada e eu tinha uma pessoa em mente para esse papel.

(...)

Um dia, meu telefone notificou, recebi duas gravações de voz.

— Batman, essa foi a última sessão com sua amiga Selina... A meu ver, ela parece verdadeiramente arrependida... Mas escute, já que a conhece bem, e me diga se é verídico. — disse a voz.

Coloquei a gravação da consulta psicológica de Selina para tocar. Tenho escutado tudo desde a primeira sessão, oferecendo sugestões a psicóloga. Eu era o único imune a manipulação de Selina, portanto a minha participação era essencial, se eu quisesse que ela obtivesse resultados satisfatórios. Meus conhecimentos em filosofia foram úteis junto da opinião da psicóloga. Trabalhamos juntos na recuperação de Selina, enfatizando dois grandes Filósofos da minha escolha, Aristóteles — que enfatizava a importância da virtude e do caráter na busca pela felicidade e pelo bem-estar, e que defendia que as pessoas podem mudar e se desenvolver ao longo da vida, e que a educação e a prática são fundamentais para o desenvolvimento de virtudes.

E Epicteto, um filósofo estoico que enfatizou a importância da autodisciplina e do controle sobre as próprias emoções e pensamentos — Ele defendeu que as pessoas podem mudar suas vidas ao mudar seus pensamentos e atitudes.

Os dois oferecem perspectivas valiosas sobre a reabilitação e a mudança de vida. Tudo que Selina precisava.

— [...] No meu julgamento, me pintaram como um caso perdido. Bruce estava lá, como sempre... Ele me olhava com aquele olhar de partir o coração. Durante o julgamento descobri através de uma testemunha da loja onde Bruce e eu íamos, que ele pagava por tudo que eu roubava. Tentava amenizar minha situação, por causa disso ele também teve problemas, mas cooperou com tudo. Causei problemas a ele, e isso me fez perceber coisas... coisas que eu... — Disse Selina.

— Precisava mudar? — a psicóloga completou.

— É...

...

— "Cleptomaníaca. Instável. Impulsiva. Manipuladora e Perigosa..." O que aconteceu depois?

....

— ... Me declarei culpada. Cooperei.

— Por fim, a pergunta final... Você se arrepende, Selina? — Perguntou a psicóloga.

— Eu...

Olhei para a tela, aguardando suas próximas palavras.

...

— Completamente...

Escutei sons de choro e então a gravação foi encerrada.

Passei a língua pelos lábios, refletindo as coisas que escutei.

Ela parecia ter desabafado tudo desde a quarta sessão. Teve dificuldades de se abrir no começo, mas depois pegou confiança na psicóloga.

Peguei o telefone, segurei por alguns segundos, ativei o modulador de voz e então gravei o áudio.

— Bom trabalho, doutora Harley Quinn... Assine os papéis, Selina está... Apta para voltar a sociedade.

Depois de enviar o áudio, um sorriso que a muito tempo não aparecia no meu rosto, surgiu.

Ela estava curada, e determinada a se redimir... Apenas esperava por uma chance, uma oportunidade de verdade. E eu faria isso acontecer...

Comentários

Postagens mais visitadas