7 - Meu Começo como a infame Mulher-Gato

 

Às vezes, penso que minha história não começou de verdade até eu cair daquele prédio. Tudo o que ainda me lembro, é que eu tinha quatorze anos quando perdi meus pais. Metropolis era brilhante demais para gente tão apagada e pobre quanto nós. Meu pai devia dinheiro. Não muito, mas o suficiente para assinar nossa sentença.

Lembro daquela voz grossa e amedrontadora, como se ainda ressoasse pelos meus ouvidos.

— Vinte e quatro horas ou a conta fecha.

E na noite seguinte, a conta fechou. Meus pais não conseguiram o suficiente, mas tinham certeza que certamente o agiota aceitaria, mesmo que faltassem alguns poucos centavos.

Centavos, foi isso que custou a vida dos dois. Eu estava escondida no armário da minha mãe, ela me colocou lá por garantia. Até que ouvi a porta sendo chutada e aqueles homens entrarem. Depois começou a violência, meu pai gritava, o braço quebrado na minha mãe sangrava e pingava no nosso tapete. Vi as moedas rolarem pelo chão e senti cheiro de cigarro. Coisas foram quebradas.

O relatório da polícia dizia que foi um assalto, não me escutaram, mesmo que eu estivesse chorando diante deles, dizendo que foi por causa de uma dívida.

Eu vi o rosto do homem que fez aquilo. E o anel enorme que ele usava. Nunca esqueci.

Depois disso tudo, virei apenas um número no sistema: órfã. Sem parentes. Sem escolha. Sem dinheiro, e mais ninguém para cuidar dela.

Fui enviada para um orfanato qualquer em Metropolis — não daqueles bonitinhos com florzinhas no jardim e estátuas de anjo. Era o tipo de lugar onde até o sol parecia desistir de entrar, abafado, fedido e sufocante. Havia ratos, poeira e muitas baratas.

As meninas lá não sorriam.

E eu também não.

Aprendi rápido que ser boazinha só fazia você virar alvo dos outros, apanhei bastante das minhas colegas de quarto, antes de aprender que a vida não era um morango, com garotas pobres e solitárias como eu.

Me lembro bem do primeiro dia.

Ava, uma das mais velhas, me pegou de surpresa no corredor e me derrubou no chão nas primeiras horas.

— Fica esperta, novata — ela rosnou, com o joelho preso no meu estômago.

Tossi.

— Eu tava só passando!

— Esse é meu território, e se quiser passar por mim, precisa abaixar a cabeça.

— Nem fudendo! — tentei agarrar o cabelo dela, e a briga selvagem começou. Como se fossemos gatas de rua.

Aquela noite terminou com meu nariz sangrando e alguns fios do meu cabelo loiro, faltando...

Depois daquele dia, encontrei um livro de defesa pessoal na biblioteca pública de Metropolis, de dia eu lia, e a noite ele ficava escondido debaixo do meu travesseiro. Precisei de muitas brigas com Ava, para aprender cada golpe. Ela era maior do que eu, mais forte. Mas aprendi naquele livro que tamanho não era documento.

Dois anos depois, Ava não encostava mais em mim. Na verdade, ninguém encostava.

Aquele livro não me ensinou tudo, mas ensinou o suficiente.

Aos dezessete, fugi.

Não foi difícil. A diretora bebia mais do que dormia, e a zeladora não estava nem aí para nada. Peguei uma mochila, algum dinheiro roubado do armário da diretora e fugi pela janela dos fundos.

Comprei uma passagem só de ida para a cidade mais barata.

Gotham.

Chamavam de louco, qualquer um que fosse para lá. O nível de violência e caos por lá, sempre foi alto. Mas eu não tinha escolha.

Para mim, era perfeita.

Me escondi num prédio abandonado por um tempo. Consegui um emprego limpando uma boate chique chamada The Velvet Room. Era o tipo de lugar onde milionários tentavam parecer rebeldes e garotas sorridentes vendiam a alma em prestações.

Eu era só a faxineira, limpava coisas nojentas nos banheiros e até escutava sons de casais, que não deveria.

Eu era Invisível.

Mas sempre com os olhos abertos.

Aprendi os horários. Quem deixava o quê no camarim. Quem gostava de encher a cara e esquecia a carteira no sofá. Comecei bem pequeno. Um brinco aqui, uma nota ali. Coisas que a princípio ninguém sentia falta, mas que eu precisava para ter um dinheiro extra.

Em pouco tempo, peguei três figurões de uma vez.

Eles estavam bêbados, rindo alto, exibindo jóias a algumas mulheres. Eu só estendi a mão... e peguei, nem notaram na hora.

Saí pela porta dos fundos, como sempre.

Mas naquela noite, eles perceberam rápido demais.

— Ei! Aquela vadia do pano! Ela tava aqui! — um deles gritou.

Corri pelas ruas escuras.

Mas Gotham não perdoa erros. Nem mesmo os meus. Eles me seguiram até um beco. Dois deles armados. O terceiro puxou um cinto com alguma coisa metálica. Mesmo bêbados pareciam focados na minha captura.

— Devolve o que é nosso, pirralha — disse o careca, apontando a arma.

— De vocês? Não... isso é meu. — respondi, girando nos calcanhares.

A adrenalina passava nas minhas veias. Era viciante sentir aquilo.

Eles vieram para cima. Um chute meu acertou o joelho do maior, o outro me puxou pelos cabelos, mas eu desviei, dei uma cotovelada no nariz dele e ele caiu com sangue escorrendo.

Mas um tiro disparou.

Não me pegou. Por pouco!

Corri pelas escadas de incêndio, subi até o telhado.

Estava escuro, molhado, o vento forte. A cidade abaixo parecia me convidar ao salto.

— Atrás dela! — escutei eles vindo, subindo de pressa.

— Droga! — dei alguns passos para trás e em um impulso para frente, pulei.

O parapeito a minha frente não parecia tão distante na hora. E por um breve momento, o tempo pareceu mais lento, minhas mãos na frente do corpo, e o quadril levemente para cima, dava impressão de que eu era uma gata de rua, saltando rumo à saída. Fugindo dos cães.

Mas então o tempo acelerou, e meu corpo ficou ainda mais pesado.

Caí.

Um estalo na costela, um ferimento na nuca. O braço esquerdo entortou para trás e cuspi sangue; durante um segundo, não senti nada, mas depois veio a dor. Como uma onda sufocante por todo o meu corpo.

— Maldição! Vamos embora daqui, ela já era. — disse o barrigudo, me olhavam lá de cima.

Gemi de dor, escutando eles vazarem. E então tudo que escutei antes de apagar foi um miado agudo. Acordei dias depois num hospital público. Ninguém me procurou. A polícia fez perguntas, eu menti. Fiquei um mês lá dentro comendo comida molenga, fazendo xixi com ajuda das enfermeiras carrancudas. Mas algo em mim tinha mudado.

As memórias... Estavam fragmentadas. Lembrava dos golpes daquele bastão metálico nas costas do meu pai, e do tiro no crânio da minha mãe, dos rostos, de alguns nomes...

Mas algumas coisas da minha infância sumiram. Havia uma sensação de que havia algo importante perdido lá atrás, algo que eu deveria me lembrar. Coisas que meus pais disseram, mas me lembrava apenas das bocas mexendo. Também tive sonhos... muito estranhos.

Pessoas mascaradas a minha volta, sorrindo de um jeito bizarro. Eles passavam a mão em mim, como se eu fosse um animal.

— Ahh... — escutei um gemido bizarro. — ela é perfeita.

— Nossa preciosa...

Depois de me recuperar, passei a treinar mais, me inscrevi em alguns cursos de defesa pessoal. Li livros sobre sistemas de segurança, alarmes, sensores. Virei uma especialista nata, até fiz alguns bicos no mundo do crime, abrindo cofres para criminosos que pagavam mais. Eles me procuravam, alguns queriam até me recrutar, mas sempre recusei. Não me atraíam, algo em agir sozinha... me dava prazer.

Foi num passeio pela cidade que vi um outdoor de ginástica. Procurei saber mais na internet, e imediatamente me atraiu. Aqueles movimentos precisos, ágeis, e as cambalhotas no ar. Me apaixonei. E me dediquei ao máximo em tudo, a ginástica passou a me dar um certo tipo de confiança que eu não tinha antes. Me senti mais forte, feminina e perigosa.

A gata em mim começou a despertar.

Mas foi durante um roubo, três anos depois, que me encontrei com ele pela primeira vez. Nunca o vi antes, nem ouvi falar, ele apenas... apareceu numa noite.

O que eu estava tentando roubar naquela noite? Era um belo colar com símbolos felinos. Esmeraldas raras, expostas num museu. Eu entrei pela claraboia, foi inesperadamente fácil.

— Você é magnífico... — admirei o colar através do vidro daquela caixa, ativei minhas garras de calor e fiz um círculo no vidro, ele derreteu e arranquei. Meu braço entrou, agarrei o colar e puxei gentilmente. Logo estava fora da caixa, na minha mão. — Você será bem usado... — murmurei sorrindo.

— Ponha de volta. — disse uma voz grave atrás de mim.

Virei rápido, com o colar nas mãos.

Ele estava lá, parado na sombra. A capa ondulando e aquele capuz. Os olhos brancos brilhavam na noite, como se penetrassem a minha alma. Então vi os chifres quando saiu da sombra.

— Ora... — coloquei a mão na cintura. — Mas quem é você? Um corvo? Um gato também? — zombei confiante, olhando para ele, de cima a baixo. — O que deveria ser a sua fantasia?

— Falei para colocar de volta. — Ele deu um passo à frente.

— O colar? Ah... Mas ele ficará melhor no meu pescoço. — inclinei o corpo para frente, como um tipo de reverência teatral. Ajustei o feixe do colar no meu pescoço, a esmeralda brilhou sobre o meu decote.

— Verde não combina com você. — ele deu outro passo, dessa vez mais perto.

— Você não parece entender de moda. — girei rápido no calcanhar, o chute mirando em seu rosto, ele desviou a cabeça para trás por pouco. — Mas parece que entende de luta.

Continuei atacando, um chute atrás do outro. Ele desviou de todos. Ele era forte, rápido. Mas eu era mais leve. Escorregadia.

— Você não vai sair daqui com esse colar. — ele tentou chutar o meu quadril, mas saltei rápido para trás.

Ele continuou atrás de mim, uma tentativa de chute, um soco doloroso que bloquei com meus pulsos. Uma rasteira que me fez cair, mas rolei no chão a tempo de me levantar de novo. Ele não parava, não se cansava. Vinha com quase tudo, mas eu ainda podia perceber que estava tentando pegar leve.

— Você parece estar me subestimando, corvo. — chutei o rosto dele, ele vacilou dando poucos passos para trás. — Está com medo de me machucar? Parece ser um cavalheiro...

Ele virou o rosto, me encarou e seus olhos brancos semicerraram.

Dei alguns saltos para trás, tomando distância próximo à saída. Mas ele veio atrás, tão rápido agora que acabou me derrubando novamente, mas me levantei antes de levar um chute, tive apenas tempo de bloquear.

— ... Auuu! — apertei meu punho onde doía. — Você parece perigoso mesmo, talvez seja eu quem está te subestimando.

Quando ele se aproximou, usei um golpe de capoeira, inclinando rapidamente meu corpo para o lado, a lâmina da minha bota passou de raspão no rosto dele.

— Está tão desesperada para me vencer, que recorre a golpes sujos? — ele me olhou com os olhos semicerrados.

Apertei meu punho, a luta estava se estendendo mais rápido do que eu previa e meu corpo doía. Numa última tentativa de me afastar, dei uma rasteira habilidosa nele, e ele caiu. Assim que o vi no chão chutei a lateral de sua cabeça, ele virou levemente atordoado. Peguei o chicote na minha cintura e bati nele enquanto se arrastava no chão.

— Vamos lá corvo, não vai desistir agora, não é?

Ele me encarou em silêncio e segurou o meu chicote, puxando com tanta força que acabei em cima dele, em uma posição que eu não esperava ser possível.

— Morcego. — ele segurou o meu braço com firmeza e arrancou o colar do meu pescoço em um puxão.

Sorri cerrando os dentes, a mão dele era firme, mas não hostil. Encarei seus olhos brancos e aproximei meu rosto do dele, ele vacilou confuso. Aquele beijo foi meu golpe de sedução. Ele era forte, mas ainda era um homem. Parecia lutar, mas acabou movendo os lábios, um beijo delicioso.

No momento em que sua mão vacilou, me levantei num pulo. Saltando acrobaticamente para trás. Fugi. Na verdade, descobri depois ao ouvir boatos sobre ele que... ele me deixou fugir.

Alguns dias se passaram, os boletos estavam prestes a vencer e eu ainda não tinha nenhum emprego. Com a cabeça quente e desesperada por dinheiro, roubei uma carteira em um shopping. Mas não demorou para a polícia me encontrar.

Passei um ano presa. Sem visita. Sem advogado público, todos estavam ocupados com outros ladrões. Era só eu e os tijolos rachados daquela cela fedorenta.

O tempo ali não me quebrou. Me moldou mais ainda.

Quando saí, o céu parecia mais escuro, mesmo durante o dia. Mas eu tinha planos como a Mulher-Gato novamente, então não me importava como clima sombrio e desesperançoso de Gotham. O apartamento da minha vítima era no alto de um arranha-céu. Ático. Vidros blindados.

Mas a porta da cobertura? Um desastre de segurança.

Entrei como um sussurro. Obras de arte, relógios raros, colares.

A ganância transbordava das paredes e meus olhos brilhavam de empolgação. Me aproximei da vitrine principal. E vi um colar com pedras negras. Lindo. Eu sempre amei colares, e sentia a necessidade de fazer daquele, o meu.

Mas eu não estava sozinha. Pensei que ao sair da prisão, ninguém se lembrasse mais de mim... mas eu estava errada. Senti um vento gélido entrar pela porta, e um baque quase silencioso.

— Nem pensa nisso. — disse uma voz rouca atrás de mim. — Você acabou de sair da prisão, e já vai roubar de novo?

Meu corpo inteiro congelou.

Depois virei.

— Você de novo no meu pé? — murmurei, estreitando os olhos para o vulto na sombra. — Por que não vai atrás de outros ladrões?

— ... Mulher-Gato. Você não aprende.

— Ou talvez eu só goste de brincar com o perigo.

Avancei primeiro, antes dele tentar qualquer coisa.

Chutei alto, ele bloqueou com o antebraço. Girei por baixo, tentando desequilibrá-lo. Ele segurou minha perna e me lançou contra o sofá.

Rolei no carpete e ri.

— Está melhor, hein, morcegão. Tem treinado?

— Você parece mais ágil também... Usou suas colegas de quarto como saco de pancada?

Dessa vez ele veio. Trocamos uma sequência rápida. Soco. Bloqueio. Cotovelada na lateral. Joelho. Soco. Bloqueio. Chute. Desviei. Soquei. Ele bloqueou com a mão. Chutei seu peitoral.

A luta era como uma dança coreografada. Éramos rápidos, eficientes. Mas dessa vez notei que dei trabalho.

A ponta da minha bota pegou no queixo dele. Ele cambaleou.

Eu corri até a varanda assim que vi uma brecha.

— É alto! — gritou ele e pulei rápido.

Meu cabelo voou para cima, o vento era forte. O chão se expandia a alguns andares. A queda era inevitável e mortal. Fechei meus olhos, e quando abri girei no ar puxando meu chicote. Uma parte voou para cima, e apertei um botão do cabo com força. Os fios da corda se expandiram de uma vez, e meu paraquedas foi ativado.

Foi lindo. O mecanismo que passei meses planejando e desenhando, deu certo. Aquela foi a primeira vez que usei. E seria a última, se eu tivesse falhado. Mas o tempo livre na cela foi compensado.

Ainda assim, a queda foi dolorosa e torci o pé. Mas consegui fugir. De novo.

Nos meses seguintes, fui metódica e passei a planejar tudo muito bem. Nada de impulsos.

Só os alvos certos: políticos sujos, empresários escorregadios, figurões nojentos. Roubava os piores. Devolvia parte à abrigos de causa animal. E ficava com o necessário para pagar meus boletos e comprar peças extras para pequenas invenções que eu tinha em mente. O básico da robótica chamou a minha atenção há alguns anos, mas nunca me permiti tempo para me aprofundar nisso... até ter tempo livre na cadeia.

A minha primeira criação antes de me aprofundar, foi as minhas luvas, as garras saltavam para fora ao apertar um botão na palma. As pontas das unhas ficavam tão quentes, que eram capazes de cortar vidro com precisão. Usei essa no meu primeiro roubo.

O segundo item a ser criado foi um item de defesa nas minhas botas, capaz de sair três lâminas que lembram unhas de gato. Uso só quando tenho certeza que não vou vencer.

Por fim, o terceiro item, foi o meu chicote, ao ativar um mecanismo no cabo, um paraquedas se abria, as fibras do chicote criavam bolhas de ar, e ele se expandia. Não era perfeito, mas amortecia minha queda em casos extremos.

Numa noite qualquer, vi no jornal um evento de caridade promovido pela Wayne Enterprises. Era na verdade um tipo de leilão, mas omitiam as informações.

A causa deles? Abrigo para animais resgatados.

Eu tinha meus pontos fracos.

Me programei, assaltei um figurão semanas antes do evento. Peguei muito dinheiro e me inscrevi para participar do evento. Quando o dia chegou, fui até lá. E durante um discurso de um dos chefes da empresa, revelaram que a recompensa era um jantar com o príncipe de Gotham, o playboy mais reservado, Bruce Wayne.

— Por fim, quem dá mais? Eu ouvi três milhões? — disse um dos chefões, que apresentava. — Cinco milhões?

— Eu! — gritou uma das mulheres, estava muito animada. — Eu pago dez milhões!

Bruce estava no palco, riu sem graça.

— Dez milhões? Eu ouvi 15 milhões?! — disse o apresentador. — Qualé, meninas, será uma noite inesquecível com Bruce Wayne!

Elas se amontoavam na frente do palco, gritavam números absurdos. Eram desesperadas. Sorri esperando por um valor provocante e caminhei até a mesa de sobremesa. Peguei uma taça de champanhe e assisti à cena. Eram todas ricas, metidas e gastavam o dinheiro de seus pais como se fossem troco de pão. Meu estômago revirou, era injusto que pessoas tivessem tanto, enquanto outras não tinham nada.

Pensei nos dias que fiquei na prisão. Me lembrei de uma mulher rica, que dirigia bêbada. Ela atropelou uma garotinha na rua. E no dia seguinte estava livre, pagou a fiança milionária e foi embora para sua mansão. Apertei a taça ao ver ela ali na frente do palco, nem mesmo parecia se lembrar do que fez.

A verdade é que, se toda pena para um crime, é a multa. Então a lei existe apenas para os pobres.

Levantei a mão.

— Duzentos milhões e... um centavo.

O lugar ficou silencioso depois que falei.

Elas me olharam em choque. O apresentador semicerrou os olhos, me olhando a distância. Bruce me olhou estranho, parecia ter congelado. Talvez tenha ficado encantado com a minha beleza.

— Parece que... temos uma vencedora!

Caminhei até a frente do palco. As mulheres abrindo espaço, me olhando de cima a baixo como se isso fosse uma competição feminina. Bruce desceu do palco junto do apresentador.

— Boa noite... — ele sorriu com um brilho no olhar que não consegui decifrar. — Nunca te vi por aqui... senhorita. — ele levantou a mão, esperando um cumprimento. — Você é?

— Selina Kyle. — Abri a minha bolsa de mão, e peguei um cheque, assinei o valor e coloquei sobre a mão dele, que ainda pairava no ar.

— Selina... — ele murmurou vendo o cheque em sua mão.

Antes que me forçassem a sair com ele, caminhei em direção à saída. Para mim, Bruce era apenas mais um dos ricos que fingem se importar com os outros. Mas eu estava determinada a não ser enganada.

Ele entregou o cheque ao apresentador e me seguiu. Congelei por um momento quando ele pegou o meu braço.

— Espere. Agradeço por estar ajudando essa causa. — ele sorriu gentilmente antes de me soltar. — Mas se a senhorita se recusar a sair comigo assim, os canais de fofoca não vão me deixar em paz por muitos meses.

Ele riu e acabei sorrindo.

Depois de alguns segundos de conversa, ele me convenceu a jantar com ele.

Durante o jantar ele me surpreendeu positivamente e acabamos nos tornando bons amigos. Bruce sempre foi atencioso, educado e nunca cruzou nenhum limite comigo. Havia algo entre nós, algo que jamais pensei ser possível com alguém que é de um mundo diferente do meu. Confiança. Ele me passou confiança.

Saímos juntos como amigos várias vezes. Em alguns desses momentos, algo mais forte em mim, me fazia continuar roubando. Tudo parecia ser mais fácil no grupo social dos ricos. Os lugares de luxo não olhavam com desconfiança para mim. Principalmente por causa da postura de Bruce e de quem ele era. Todos sabiam sobre ele, e abaixavam a guarda.

Todas as vezes que roubei, estando acompanhada de Bruce, era mais fácil. Uma joia aqui, um anel ali. Uma bolsa de mão caríssima, peguei várias coisas e nunca deram falta. Bruce não sabia, é claro... e eu escondia dele.

Pelo menos achava que sim... até eventualmente descobrir que ele pagava por tudo. E comprava algumas das lojas aonde íamos. Como se quisesse abafar os casos, manter o que eu fazia em segredo.

Descobri sobre isso durante o julgamento... Depois que roubei o banco...

Aquele foi o banco da cidade. Segurança de última geração, sensores térmicos, guardas armados até os dentes.

Um desafio digno da Mulher-Gato.

Passei meses estudando a planta do prédio. Os turnos dos vigias. O caminho que os cabos da energia faziam sob o concreto. As câmeras, os detectores, tudo.

Treinei cada movimento como se fosse uma coreografia.

E no dia certo, vesti meu vestido, respirei fundo... e fui atrás da emoção.

O telhado do banco era como uma fortaleza. Mas encontrei a entrada que ninguém vigiava tanto — o duto de ventilação no andar de serviços.

Me esgueirei por ele como uma cobra, desativei os sensores com um aparelho artesanal que comprei de alguns capangas do Cara de cicatriz, e cheguei até o cofre.

— Te achei, bonitão... — sussurrei ao ver o aço cromado, reluzindo como se me chamasse.

Usei um código antigo que encontrei escondido em arquivos esquecidos de um funcionário corrupto, precisei da minha técnica de sedução para arrancar dele.

O cofre abriu como um baú do tesouro.

— Que boca gulosa... — murmurei excitada, deslizando os dedos pelas pilhas de notas e barras de ouro. — Vamos dar um passeio delicioso... — senti o aroma das notas.

Em menos de sete minutos, enchi duas mochilas.

Na saída, deixei um bilhete:

"Me encarregarei de dar as pessoas e aos animais que precisam de verdade. Com carinho, Miau"

Com muito esforço e com os braços e pernas doendo, subi pelo fosso do elevador de serviço. Finalmente cheguei ao telhado, passei pelo tubo de ventilação desligado. Era apertadinho, mas por ser magra e flexível, consegui passar.

Então vi ele de novo. Eu não esperava dessa vez, mesmo que uma pequena dúvida passasse pela minha mente. Pensei que naquela noite ele estaria ocupado cuidando do Coringa outra vez, ou patrulhando em outro bairro.

— Justo quando pensei que estivesse superando isso... — ele saiu das sombras, sua capa esvoaçante ao vento gélido da noite. — Você decide fazer o maior roubo da sua "carreira".

— Minha vida é monótona demais... gosto da adrenalina que isso tudo provoca... — coloquei a bolsa nas costas. — Mas não se preocupe com o destino desse dinheiro... doarei aos pobres que moram perto do beco do crime, há pessoas que precisam de verdade desse dinheiro... Eu não sou uma pessoa má.

— Você não é o Robin Hood, Cat. Deixe a mochila no chão... — ele estendeu a mão. — Sua cleptomania... eu posso te ajudar a tratar.

Eu ri, dando alguns passos para trás.

— Acha que tudo vai se resolver pra mim, com ajuda psicológica? — ri mais alto e os olhos dele se estreitaram. — Sabe quanto custa um psicólogo nessa cidade, Bat? Não é à toa que Gotham é um hospício a céu aberto.

Corri.

E ele veio atrás.

— Tenho contatos! — ele gritou, me perseguindo. — Pessoas que me devem favores, você não pagaria por nada.

Corri mais rápido ainda.

— Ainda teria boletos para pagar e um aluguel prestes a vencer! — parei abruptamente, as lâminas saíram dos meus pés e quase acertei seu rosto, mas a lâmina apenas arrancou uma parte de seu capuz, deixando um buraco estiloso.

— Selina, por favor! — ele deu um passo à frente e tornou a me seguir.

Saltamos de prédio em prédio, eu era mais ágil em desviar de suas luvas, ele mais rápido em seus passos. Cada passo, cada pulo, era uma dança perigosa entre predador e presa.

Quando tentei virar numa viela estreita, algo acertou meu tornozelo.

Seu gancho.

Fui puxada com força e um gemido entrecortado saiu. Caí no chão com o ar rasgando meus pulmões, escutei seus passos mais próximos.

— Me solta! — gritei, chutando o gancho. — Qual é! Você me deixou fugir outras vezes, me deixe ir agora!

Ele se aproximou e me agarrou firme.

— Você precisa parar. — ele disse com uma firmeza que nunca escutei antes.

Tentei me soltar uma última vez.

Mas meus olhos encontraram os dele.

Não havia raiva ali. Nem ódio ou aquele olhar de quem está cansado da perseguição. Só havia... tristeza? Um olhar que ele nunca me dirigiu antes.

— Você podia ter sido qualquer coisa — ele disse me segurando com as duas mãos. — Se parasse com tudo isso, teria uma família...

— Você não sabe nada sobre mim! Acha que sabe, detetive. Mas. Não. Sabe.

— Sei que é solitária.

Aquilo doeu. Não deveria doer, mas machucou.

Continuei vendo em seu olhar, mesmo através daquela lente... O quão diferente ele estava me olhando.

— Não é verdade... eu sou livre! — respondi, com os dentes cerrados.

— Isso não é liberdade. — ele me algemou com força. — Seus dias de Gatuna acabaram, — ele se inclinou sobre mim. — da próxima vez... espero que não use essa roupa de novo.

Meu peito doeu, ele me puxou e meus passos vacilaram durante o caminho. Me senti traída, pensei que houvesse algo especial entre nós. Mas me enganei.

Ele me levou pessoalmente a delegacia... estava fria e silenciosa quando ele me entregou pessoalmente ao comissário Gordon.

— Mulher-Gato, em flagrante. Todo o dinheiro recuperado.

Gordon apenas suspirou.

— Selina... — murmurou, passando a mão nos cabelos grisalhos. — Você tem talento. Mas insiste em jogá-lo no lixo.

— Eu roubo de quem rouba primeiro. Querem que eu tenha pena? Estou apenas devolvendo o que foi tirado de nós, comissário.

Ninguém respondeu.

Mas os olhos deles diziam tudo.

Olhei para Batman, a raiva ainda queimava no meu olhar.

— Você me traiu... — saiu como um sussurro doloroso.

Ele não reagiu.

— Estou profundamente chateada.

Pensei que ele não responderia nada, enquanto caminhava até a janela. Mas ele parou e me olhou por cima dos ombros, vi aquele olhar de antes, outra vez.

— Isso é para o seu bem.

— Vai se ferrar, Batman! — gritei com lágrimas nos olhos enquanto ele pulava.

Gordon me olhou em silêncio enquanto as lágrimas caíam sem parar. Aquilo doeu tanto que mal consigo descrever.

No meu julgamento, me pintaram como um caso perdido. Bruce estava lá, como sempre... Ele me olhava com aquele olhar de partir o coração. Durante o julgamento descobri através de uma testemunha da loja onde Bruce e eu íamos, que ele pagava por tudo que eu roubava. Tentava amenizar minha situação, por causa disso ele também teve problemas, mas cooperou com tudo. Causei problemas a ele, e isso me fez perceber coisas... coisas que eu...

— Precisava mudar? — a psicóloga da prisão completou.

— É...

Ela olhou a minha ficha e leu em voz alta:

— "Cleptomaníaca. Instável. Impulsiva. Manipuladora e Perigosa..." O que aconteceu depois?

Ouvir essas palavras me causou desconforto. A imagem de Bruce surgiu na minha mente...

— ... Me declarei culpada. Cooperei.

E no fim, recebi sete anos de pena. Sem liberdade condicional ou fiança.

Reduzidos para três por bom comportamento na prisão, e acompanhamento psiquiátrico durante duas vezes na semana, mas três remédios diferentes para controlar e regular o meu humor.

A psicóloga anotou tudo durante a nossa última sessão, eu estava cooperando.

— Por fim, a pergunta final... — ela disse. — Você se arrepende, Selina?

— Eu... — as palavras seguintes pareciam estar entaladas na minha garganta, mal consegui dizer. — Completamente... — as lágrimas arderam nos meus olhos, era genuíno.

Ela escreveu algo e saí da sala.

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