27 - Meu Pequeno Erro

 

Poucos minutos depois que Selinne me deixou sozinho, eu estava sentado no banco de pedra, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos entrelaçadas, e o olhar perdido em algum ponto distante no gramado... A quietude do lugar era um contraste com o que pulsava dentro de mim. Era apenas mais uma das dores que eu carregava, mas essa... era de alguma forma, letal sentimentalmente falando.

Ouvi os passos antes mesmo de vê-lo. Alfred. Como sempre discreto, sempre presente. Ele se aproximou com aquele andar calmo, a barba estava borrada de chantilly, ele comeu bolo. E fazia muito tempo que ele não comia algo doce...

— Ela agradeceu pelo bolo... — ele disse, com a voz baixa. — E... estava chorando. Não de uma forma escandalosa, mas sutil.

Não respondi. Só respirei fundo.

— Imagino que a tarde não tenha terminado bem... — continuou, sem me julgar, mas com uma tristeza que parecia pesar tanto quanto a minha.

Ele se sentou ao meu lado. O banco de pedra cedeu ligeiramente sob o peso dele. Ficamos em silêncio por alguns segundos. O suficiente para que ele perguntasse:

— O que aconteceu? Vocês brigaram?

— Ela descobriu tudo... — murmurei, quase sem voz. — O Batman... meus sentimentos.

Ele virou o rosto lentamente na minha direção.

— Mas... como? Você sempre escondeu bem, patrão Bruce. Selinne nunca desconfiou de nada... o senhor até me disse, certo dia... que lançou mais uma daquelas indiretas, bem diretas, e ela nunca percebeu.

Balancei a cabeça, ainda encarando o nada. Era verdade, Selinne só enxergava o que ela queria.

— Foi pelo beijo.

Alfred franziu o cenho, confuso.

— Um beijo? Ora... mas quem diria.

— Alguns segundos, foi o suficiente para ela começar a me enxergar de verdade. E a reação dela... não foi nada como eu esperava. Você sabe, tracei planos, e até pensei em boas respostas, mas na hora... para a minha surpresa, nada disso aconteceu.

— Como sempre, uma moça imprevisível... — Alfred murmurou.

Meu relógio apitou. Um sinal urgente. Era um alerta de Robin.

— Croc está atacando de novo — murmurei, me levantando depois de tirar os olhos do relógio.

— Pensei que ele ainda estivesse preso em Arkham.

— Estava, mas fugiu faz poucos dias. Fiquei observando por um período, ele estava quieto em um novo covil.

— Tramando alguma coisa... — Alfred concluiu.

No meu primeiro passo, senti o peso do corpo responder com uma lentidão estranha, como se até meus músculos estivessem desgastados com tudo isso. Encarar monstros nas ruas parecia mais fácil agora do que encarar o que estava quebrado entre mim e ela. Algo que eu me recusava a dizer, mas temia que nada pudesse ser reparado.

— Vai sair assim? Não vai atrás dela? — perguntou Alfred, ainda sentado.

— Não há nada que eu possa fazer agora... Selinne não vai me escutar enquanto estiver com a cabeça quente. Ela precisa de tempo pra digerir tudo. E eu... também.

Alfred baixou o olhar, abatido. Eu o conhecia bem o bastante para saber que aquela tristeza dele não era apenas por mim, mas por ela também. Alfred gostava de Selinne, gostava de Isis. Depois dos meus pais, e dos meus poucos amigos, Selinne foi a única que chegou perto o suficiente de mim. Ela me fazia bem, me fazia me sentir humano de novo, Alfred via isso, e por isso a respeitava.

— E depois? — ele perguntou, com a voz pesada. — O que vai fazer?

— Quando a poeira abaixar... conversaremos.

Segui pelo caminho de pedras, sem olhar para trás. O céu começava a escurecer, e olhando a distância um Batsinal vermelho se destacava nas nuvens.

Enquanto caminhava pelos corredores frios da mansão em direção à dama de ferro, a lembrança do rosto de Selinne ainda passava na minha memória. Ela tremia. Os olhos dela, arregalados, confusos, havia traços de raiva... era como se estivesse vendo um estranho. Como se a tentativa do meu toque fosse uma ameaça, como se aquele abraço anterior nunca tivesse existido. Ou... qualquer outro toque anterior.

E aquilo... me machucou. Embora eu jamais dissesse isso em voz alta — nunca fui do tipo que admite dores.

Reconheço que cometi alguns erros, a maioria agindo com frieza em prol de obter o máximo de informações sobre Selinne, antes de prendê-la. Mas algo improvável nos aproximou, e então nos tornamos o que somos hoje. Ou... éramos. Eu sei que, não só quebrei a confiança dela — eu a desfiz.

Não preciso dizer que a amo, é evidente em minhas ações. Mas havia uma estranha necessidade de afirmar isso. Pensei que um dia teria essa oportunidade, que confessaria meus sentimentos de forma clara, e ela entenderia. Então depois, só depois... eu contaria quem sou, e porque fiz tudo que fiz.

Mas hoje, não foi esse o caso.

Na verdade, foi tudo bem inesperado.

Meu erro, hoje, foi ter falhado em recusar aquele beijo. Mesmo que eu desejasse muito.

Nunca fui do tipo que age com emoção, impulso. Não. Não mesmo. Sempre tive disciplina, pensava com cuidado, cada passo coordenado, cada palavra calculada para atingir com precisão os efeitos que queria.

Mas nesse dia, diante dela. Vacilei pela primeira vez.

Gotham conhecia o rumor que era Batman, como um mito que a polícia conta para assustar criminosos, poucos realmente tiveram a oportunidade de me conhecer, de me temer, de olhar com apreensão para as sombras, com medo que eu estivesse lá. Já Bruce Wayne era apenas um eco daquele garotinho que perdeu seus pais, na verdade, uma máscara para circular em meio aos civis. Mas o lado que mostrei para Selinne... aquele sempre foi real. Ambas as metades, Bruce e Batman, meu lado humano combinado em uma só pessoa — seu melhor amigo. Alguém que ainda tem um pingo de esperança, enquanto todos os outros pensam ser o contrário...

Terminei de vestir minha armadura, enquanto esses pensamentos martelavam minha mente. Puxei a máscara para o rosto, cobrindo meus olhos com aquele capuz. Estava pronto.

— Batman — Batgirl se aproximou segurando um tablet — Croc está próximo ao zoológico. — ela ergueu a tela, mostrando a localização exata. — Ele libertou alguns crocodilos e eles estão espalhando o caos por toda a área. Segundo o mapeamento que fizemos, ele está interessado em usar a fuga dos animais como distração para chegar ao novo Shopping center, que será inaugurado segunda-feira.

Caminhei em direção ao Batmóvel, já preparado na plataforma giratória.

— As demais informações serão entregues no caminho.

— Entendido. — Entrei, as portas se fecharam automaticamente, e em instantes o carro se lançou pelos túneis escuros. — Tudo que eu mais quero agora, é bater em alguma coisa com toda a minha força... — murmurei.

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