26 - Estranhamente Familiar

 

Antes que ele pudesse comentar mais, Alfred entrou no jardim. Viu o garfo na mĂŁo de Bruce, e parou de andar por um segundo.

— Ah. AĂ­ estĂĄ ele. Sempre senti falta dessa peça. É de uma coleção rara da ItĂĄlia. A madame Martha os adorava.

Bruce me lançou um olhar entre divertido e acusador.

— VocĂȘ e minha mĂŁe sempre tiveram bom gosto... exceto por vinhos caros. — Bruce piscou e entregou o garfo a Alfred.

— Se eu soubesse que era algo da sua mĂŁe, eu... — cobri o rosto, envergonhada.

— Selinne, estĂĄ tudo bem. É apenas um garfo. — disse Bruce, a voz tranquila como sempre.

Apesar disso, nĂŁo me sinto melhor. Bruce Ă© bom demais para se deixar abalar por algo assim. Mas eu compreendo a importĂąncia.

Alfred voltou para dentro, levando a peça. Me levantei, indo até a fonte interna. Olhei meu reflexo na ågua.

— VocĂȘ Ă© sempre tĂŁo compreensivo comigo... — murmurei, mas sei que ele ouviu. — VocĂȘ sempre teve esse lado esperançoso, e talvez eu seja uma das Ășnicas que consegue perceber de fato.

Bruce se levantou do banco, caminhou com passos lentos até o meu lado, de frente para a fonte.

— Mas Ă s vezes sinto que nĂŁo mereço toda essa bondade...

— Selinne, isso nĂŁo Ă© verdade. — ele se virou, e me olhou. — Pessoas como vocĂȘ sĂŁo as que mais merecem. VocĂȘ merece todas as chances, merece que tenham esperança em vocĂȘ. E eu nunca, nunca vou desistir de vocĂȘ.

Hesitei, mas olhei para ele.

— VocĂȘ e Isis sĂŁo tudo que eu tenho, sem vocĂȘs eu nĂŁo sou nada. Se um dia nĂŁo estiverem mais na minha vida, nĂŁo sei como eu poderia continuar...

— Mas Selinne...

— Essa Ă© a verdade, Bruce. — olhei meu reflexo na ĂĄgua outra vez. — NĂŁo importa quanto tempo passe, ou quantos nomes eu tenha... Aquela Selina ainda estĂĄ aqui dentro, e o dia que ela despertar outra vez... — interrompi minha frase, controlando a vontade de chorar. — Temo perder tudo.

— Mas do que estĂĄ falando? — ele aproximou a mĂŁo do meu rosto e me fez olhar para ele. — Tudo o que eu vejo, Ă© vocĂȘ. Apenas vocĂȘ Selinne.

— Bruce...

— E vi essa Selinne a poucos minutos atrĂĄs, quando me devolveu aquilo. O simples ato de reconhecer o erro do passado, ou provar que tipo de pessoa vocĂȘ agora... SĂł diz o quanto vocĂȘ acredita nessa sua nova versĂŁo...

Olhei bem para seus olhos, havia algo ali.

— Mesmo que vocĂȘ acredite que nĂŁo hĂĄ nada aĂ­ dentro... mesmo que se negue a aceitar. Eu vejo.

As lĂĄgrimas encheram meus olhos.

— Eu vejo. — ele repetiu.

Meus lĂĄbios ficaram trĂȘmulos, e fechei os olhos com força, sentindo aquele sentimento que tanto quis sufocar. Meu coração estava acelerado, e o sangue nas minhas veias parecia mais quente do que nunca.

Bruce me puxou, e me abraçou forte.

Apenas fiquei ali, sentindo.

Perdida naquele abraço quente.

— NĂŁo sei o que hĂĄ de errado comigo... — murmurei, secando meu rosto.

Bruce colocou o queixo sobre a minha cabeça, me abraçando firme, mas nĂŁo o suficiente para me prender o sufocar. Era gentil, e caloroso. Um abraço que parece aquecer a alma, ou trazer refĂșgio a coraçÔes feridos. O sentimento no meu peito era amargo, mas agora senti que se fragmentava aos poucos.

— NĂŁo hĂĄ nada de errado com vocĂȘ.

Envolvi meus braços ao redor dele. Mas senti que ainda havia algo, era mais fåcil de perceber agora. O ar saiu dos meus pulmÔes. Abri meus olhos e me afastei, apenas o suficiente para olhar para ele.

Ele me olhou, sorriu de leve.

Meu peito disparou e entĂŁo me movi sem pensar muito.

Eu precisava saber.

Eu saberia.

Bruce recuou brevemente, a surpresa estampada em seus olhos verdes. Mas... ele deixou.

Eu o beijei.

Foi suave, quente, macio e... familiar. Familiar demais.

Ele moveu os låbios sobre os meus, foi lento e até meio intenso demais para o primeiro beijo. Toquei seu rosto, não queria parar. Mas então alguém veio à minha mente. E quando o vento passou, levou algo consigo. Foi naquela brisa suave que recuei meus passos, empurrando seu corpo.

— NĂŁo...! — aquele sussurro foi como um grito.

— Selinne, desculpe... — ele me olhou confuso, mas ainda havia surpresa lĂĄ, misturada a mais alguma coisa...

Outro passo para trĂĄs. Meu corpo agora tremia, e eu estava pĂĄlida. O ar me escapava.

— Podemos fingir que isso nunca aconteceu, nĂŁo tem problema... — ele deu um passo na minha direção, mas recuei mais dois. — NĂŁo precisa ficar assim, eu nĂŁo...

— É vocĂȘ. — declarei, interrompendo.

— O quĂȘ? — ele inclinou a cabeça, parecendo confuso.

— É vocĂȘ... — agarrei meus braços, meu corpo nĂŁo parecia bem.

— Eu? NĂŁo estou entendendo...

Olhei para todas as direçÔes, algo gelado passou pelas minhas veias.

— VocĂȘ precisa se sentar... — ele se aproximou, querendo me levar ao banco, mas recuei outra vez. — Selinne?

As lågrimas escorreram dessa vez, traçando meu rosto como veias.

— Eu sei... VocĂȘ Ă© ele. — fui tudo que consegui murmurar.

O choque da descoberta me assolava. Um ataque de pĂąnico me pegou, e eu sĂł conseguia tremer, como se estivesse com frio. Era doloroso no peito. Minha alma parecia detonada.

— "Ele"? — Bruce estreitou os olhos e um lampejo passou pela minha mente, vi ele vestido com sua armadura, e os olhos brancos.

— VocĂȘ Ă© o Batman.

Foi nesse instante que o olhar de Bruce mudou. Como se sua mĂĄscara tivesse caĂ­do.

— VocĂȘ nĂŁo estĂĄ pensando direito...

Abaixei a cabeça, forcei a interrupção das minhas lågrimas.

— Por que fez isso? Por que... — minha voz falhou antes de completar. — mentiu pra mim?

Ele nĂŁo respondeu.

— Acabei de dizer que vocĂȘ era tudo que eu tinha!... mas agora... Tudo isso, foi uma mentira? Por que me enganar? Por quĂȘ!?

— Selinne... — ele abaixou a cabeça, pensava no que devia dizer. — VocĂȘ precisa se sentar, nĂŁo estĂĄ bem.

Bruce tentou tocar o meu braço, mas afastei sua mão.

— NĂŁo faça isso... — ele murmurou. — NĂŁo me afaste assim...

— VocĂȘ me enganou... — meus passos me deixavam cada vez mais distantes. —Nossa amizade... nunca existiu.

— Isso nĂŁo Ă© verdade.

— Desde o inĂ­cio vocĂȘ sabia quem eu era!... Se aproximou de mim, e entĂŁo...

Minha mente estava a mil, lembranças, momentos íntimos. Palavras e segredos meus, tudo que jå compartilhamos. Ele me usou, virou meu amigo para me manipular.

— ... VocĂȘ estĂĄ certa... — ele admitiu, e entĂŁo me encarou, os olhos quase frios. — Me aproximei, te conheci e viramos amigos... Mas estĂĄ enganada se pensa que nada entre nĂłs foi de verdade. EstĂĄ profundamente enganada.

— Isso nĂŁo importa!

— ... NĂŁo importa?

— E-eu confiei em vocĂȘ, Bruce... VocĂȘ foi o meu melhor amigo, te contei meus segredos, minha vida, meus traumas e sonhos... Mas nĂŁo foi exatamente para vocĂȘ que eu estava contando, confiando meus segredos... foi para o Batman.

— Selinne... — ele balançou a cabeça, tinha mais a dizer, mas eu nĂŁo queria escutar uma palavra a mais.

— O meu amigo, sempre foi essa mĂĄscara. — declarei. — E agora ela estĂĄ quebrada.

O gelo ainda passava pelas minhas veias. Meu corpo inteiro tremia como se a adrenalina de uma luta pela vida, estivesse acontecendo dentro de mim. Movi meus passos em direção à saída, Bruce me chamou outra vez, mas não parei. Peguei Isis no caminho e peguei todas as minhas coisas na sala.

— Madame? — disse Alfred ao me ver. Sua barba estava um pouco suja de chantilly.

Olhei para ele, as lĂĄgrimas caindo quentes.

— Obrigada pelo bolo, Alfred... estava delicioso. — abri a porta e saĂ­.

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