18 - Alguns têm Finais Felizes
Meu domingo foi... tranquilo. E quando digo isso, juro que não é ironia. Acordei com a luz da manhã se infiltrando pelas frestas da cortina e o ronronar preguiçoso da Isis encostada no meu quadril. Fazia tempo que eu não tinha um dia assim, sem interrogatórios, socos na cara ou promessas de vingança penduradas no pescoço como coleira. Tomei café devagar, lavei a louça sem pressa, e deixei a televisão ligada só pelo som de fundo.
Foi aí que escutei.
Interrompi minha caminhada até o sofá quando ouvi o nome dele: Victor Fries.
Parei, virei o rosto em direção à TV. A repórter, daquelas com voz de quem aprendeu a sorrir até falando sobre desastres, explicava a notícia do dia: Nora Fries foi curada.
Fiquei parada no meio da sala. As palavras demoraram para se encaixar na minha cabeça. Nora viva e curada. Fora da criogenia. Respirei fundo, tentando absorver tudo aquilo. Como se o mundo, por um momento, tivesse permitido que algo bom acontecesse para alguém que merecia. Era até meio engraçado ver isso acontecendo em um lugar sombrio como Gotham.
Victor continuava preso, claro. O tribunal decidiu que ele deveria cumprir sua pena em Arkham até estar "verdadeiramente apto" para voltar à sociedade. Mas... deixaram ele continuar a pesquisa. Deixaram que amasse Nora com a ciência que o enlouqueceu. E ele conseguiu...
Pelo que disseram, a WayneCorp financiou tudo. O laboratório no Asilo, materiais, verba.
Era Bruce, como sempre, mexendo os pauzinhos nos bastidores. Ele não me dirá abertamente, mas sei que foi por causa dele que o tribunal reabriu o meu caso e analisou até que minha sentença fosse financiável.
Me lembro bem de Victor, aquele rosto de dor constante e olhos sempre úmidos de saudade... Ele conseguiu salvar a mulher da vida dele. E agora, a cura desenvolvida por ele vai ser disponibilizada para o mundo todo, para todos que tinham e sofriam com aquela mesma doença. Fiquei olhando para o nada por um tempo. A Isis pulou no sofá e se enrolou ao meu lado, mas nem isso me fez sair do transe. Lembrei de quando vi Victor pela primeira vez, anos atrás... aquela armadura ridícula de cabos, a frieza literal, e ainda assim, era um homem apaixonado demais para desistir do que mais queria, a esposa de volta. Um cientista obcecado, não por poder, mas por amor.
E, no fim, ele conseguiu.
De alguma forma, penso que os vilões são mais românticos. Eles sentem mais, e fazem loucuras pelo amor. E isso sempre me fascinou, eu não admitiria abertamente, mas havia certa beleza nisso.
Sorri. Um daqueles sorrisos sinceros, pequenos, que nascem devagar e doem um pouco, porque o mundo quase nunca permite que eles existam.
— Você conseguiu, Frio... — murmurei, baixinho, como se ele pudesse me ouvir. — Estou feliz por você.
E por alguma razão, aquilo me deu esperança. Não para mim, exatamente. Não tenho ilusões quanto ao meu próprio final. Mas... se Victor Fries teve uma chance de redenção, talvez esse mundo não esteja completamente perdido. Talvez ainda exista espaço para um final feliz. Mesmo que demore. Mesmo que doa. Mesmo que venha depois de tudo...
Segunda-feira.
Meus pés tocaram o chão frio do quarto antes mesmo do despertador tocar. Não dormi direito noite passada, fiquei pensando em Victor e em tudo que ele passou. Me olhei no espelho do banheiro e tentei dizer para mim mesma que estava tudo bem. Que eu era capaz. Mas ainda tinha algumas dúvidas, hoje será meu primeiro dia trabalhando na WayneCorp, e eu nem sou realmente capacitada, mas já que consegui a vaga, devo dar tudo de mim. Talvez assim Batman e Bruce vejam que estou realmente tentando, e que quero me sair bem. Seria ótimo se Bullock também visse isso e me deixasse em paz. Ele acha que não percebo, mas vi o carro dele no final da rua, está de olho em mim.
Peguei um táxi e fiquei encarando a cidade pela janela o caminho inteiro. Gotham parecia menos cinza hoje, mas isso podia ser apenas mais uma ilusão. Chegando à WayneCorp, parei por um instante na calçada, olhando aquele prédio imponente de concreto. Respirei fundo, paguei o motorista e entrei com passos decididos.
E foi ali, logo perto do balcão da recepção, que o vi. Bruce.
Com um terno escuro, impecável, como se tivesse acabado de sair de uma revista. Seu cabelo estava bem organizado, e com aquele charme do piebaldismo que sempre o tornou único. Ele sorriu de leve ao me ver e veio na minha direção com os braços levemente abertos.
— Bom dia, Selinne. Pronta pra conhecer a WayneCorp?
Sorri e o abracei de leve.
— Bom dia, mais pronta do que pareço, espero — tentei sorrir com segurança, mas acho que só consegui um meio-termo entre "estou bem" e "socorro".
— Calma, sei que você vai se sair bem. Pode ser difícil no início, mas te conhecendo como conheço, sei que vai dar tudo de si. — ele me olhou atento com aqueles olhos esperançosos e com leves olheiras que ele tentava disfarçar com corretivo.
— Espero que você esteja certo...
Bruce me conduziu pelos corredores com aquela calma de quem conhecia cada detalhe daquela empresa. Mostrou as salas, cumprimentou alguns funcionários pelo corredor, explicou os benefícios, mostrou o refeitório, falou dos planos de saúde, auxílio para estudos, a sala de descanso... Eu ouvia tudo, mas confesso que estava mais preocupada em parecer "normal". Como se cada passo meu fosse observado ali dentro. E talvez fosse.
— Selinne, aqui é o setor ambiental — disse ele ao abrir uma porta de vidro. — Quero que conheça a doutora Pamela Lillian.
Meus olhos bateram nela e meu coração deu um pulo. Era a antiga Hera. Hera Venenosa. Mas ali naquele ambiente contraditório, sem folhas brotando do cabelo ou olhos brilhando como os de um predador. Estava vestindo uma camisa social esverdeada e uma saia lápis, o cabelo ruivo preso em um coque elegante. O sorriso, leve. Os olhos? Ainda tinham aquele brilho fascinante.
— É um prazer, Selinne — disse ela, com a voz suave. — Bruce fala muito de você.
Assenti com a cabeça, e olhei de relance para ele. Aquele olhar estava lá. Aquele que diz "eu te falei". Que mostra, sem dizer, que ele acredita em segundas chances de verdade. Que Hera foi consertada. E que eu também podia...
— O prazer é todo meu, Pamela.
— Ah, por favor, apenas Pam. — ela sorriu.
— Agora que já se conheceram, vamos indo. Não devemos tomar muito, o tempo da senhorita Pamela Lillian. — Bruce deu alguns passos para trás, cumprimentei Hera com a cabeça antes de seguir ele.
Caminhamos mais um pouco e ele finalmente me levou até o elevador. Apertou o botão do décimo andar. Subimos em um silêncio confortável. No meu peito, a ansiedade se movia como uma daquelas agulhas de uma bússola desorientada.
A porta se abriu num andar bem iluminado, cheio de divisórias de vidro e carpetes claros. Bruce me guiou até uma sala com uma placa escrita "Gerência".
— Venha Selinne. — disse Bruce entrando primeiro, me deixou confortável para entrar depois.
Lá dentro, um homem de terno bege e cabelos grisalhos se levantou da cadeira giratória. Mason. Tinha um olhar afiado, mesmo que contido, o sorriso de um executivo bem treinado. Estendeu a mão e eu apertei, mas no momento do contato... algo me deu um choque interno. Arrepios subiram pelos meus braços. Os instintos falaram, e eu escuto meus instintos. Não confio naquele sorriso...
— Seja bem-vinda, senhorita Kyle — disse ele, ainda segurando minha mão um segundo a mais do que deveria. — Bruce me falou de você, vai ser um prazer te ter na equipe.
— Muito obrigada... — puxei minha mão, mas mantive o sorriso para evitar constrangimento.
— Bom, vou deixá-la agora. Boa sorte, Selinne. — Bruce se despediu com um leve aceno. — Me avise se precisar de qualquer coisa. Pode ir a minha sala a qualquer momento durante a manhã.
E então... ele se foi.
A porta mal tinha fechado, e o rosto de Mason endureceu. O sorriso evaporou como se nunca tivesse existido. Ele me analisou de cima a baixo como quem avalia uma prateleira nova.
As outras funcionárias, todas bem arrumadas e escondidas atrás de telas de computador, ergueram os olhos para mim. Nenhuma sorriu. Nenhuma disse "bom dia". Apenas trocaram um olhar que conheço bem. Daqueles que diz: certeza que deve ter dormido com ele para conseguir essa vaga.
— Sua mesa é aquela. — disse Mason, apontando para uma mesa próxima à janela.
Me sentei na mesa indicada. A cadeira era desconfortável, e a sensação de estar em território hostil só aumentava. Os pelos da minha nuca estavam arrepiados.
— Olá, Selinne. — disse uma das secretárias, surgindo ao meu lado. — É simples, você vai organizar esses arquivos aqui, depois criar planilhas específicas de acordo com essas diretrizes. — Ela me entregou uma folha dobrada, e um pen drive. — Comece com esses dados. Ah, e nada de errar fórmulas. A última que errou... bom, não está mais aqui.
Ela se afastou antes que eu pudesse responder. Sequer se apresentou.
Demorei um pouco, mas consegui ligar o computador e colocar a senha e as informações do papel. Então comecei a trabalhar. Organizei tudo com atenção. Me concentrei nas colunas, revisei as fórmulas, fiz tudo como se dependesse disso para respirar.
Depois de algumas horas, imprimi os relatórios e levei até a mesa da colega, para uma revisão.
Ela pegou as folhas, olhou de cima, revirou os olhos e murmurou alto o bastante para todo mundo ouvir:
— Isso aqui tá uma porcaria. Refaça.
Me entregou de volta sem nem olhar para mim de verdade.
Sorri. Frustrada. Mas sorri. E voltei para minha mesa. Ia refazer. Ia refazer quantas vezes mais fosse preciso.
Porque mesmo com tudo isso... eu estava aqui.
Trabalhando.
Legalmente.
Tentando uma carreira.
E eu ia conseguir. Nem que fosse nas garras...



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