17 - Interrogada de novo
Na manhã seguinte, bem cedo, eu já estava na delegacia outra vez, encarando aquele rosto feio daquele detetive mal-amado. O cara de buldogue — Bullock.
— Você tá enrolando a gente, Selina Kyle. Tá bem claro que tá tramando alguma coisa... e eu vou descobrir o que é.
— Ah, por favor... — revirei os olhos, recostando o corpo. — É sempre o mesmo discurso, você está com o disco arranhado?
— Fui até o tal teatro abandonado — ele continuou, ignorando a provocação — aquele que você comentou na última vez que esteve nessa cadeira. Sabe o que tinha lá?
Cruzei os braços, vendo uma pasta na mesa.
— Figurinos velhos, teias de aranha e o palco quase cedeu sob meu peso. Achei que fosse cair direto no inferno.
— Devia ter olhado o que tinha debaixo do palco — falei, sem conter o tédio na voz.
— Eu olhei. Um corredor fedido, cheio de mofo, cupins e um armário quebrado. Nenhuma máscara, nenhuma arma, nada do que você disse. Absolutamente nada.
Maldita seita, limparam aquele lugar inteiro!
— Estão me fazendo de idiota — ele rosnou. — Se dependesse de mim, você já tava na mesma cela que o maldito morcego. Gordon tirou a Montoya de perto de você, e como num passe de mágica, outra joalheria é roubada. Coincidência, né?
— Eu não roubei nada! — bati com força na mesa, e o som ecoou pelas paredes. Me inclinei, os meus olhos fixos nele. — Eu já mudei de vida, cacete! Já paguei pelos meus crimes, e fui declarada apta para voltar a sociedade. Você quer ver meus documentos de novo? Pergunte a psiquiatra da prisão.
Ele, imperturbável, abriu a pasta. Tirou algumas fotos e jogou em cima da mesa, espalhando as imagens como cartas de um jogo sujo. Câmeras de segurança perto do frigorífico de ontem. E ali estava eu... usando minha máscara e vestido de látex.
— Reconhece essa loirinha aqui? — ele perguntou, cínico.
Peguei as fotos, olhei uma a uma. Vi os horários e as datas na imagem.
— Isso foi ontem... Eu tava ocupada demais socando os capangas do Pinguim pra roubar qualquer coisa. Pergunta pra ele, se duvida de mim.
Bullock soltou uma gargalhada curta e seca. Tão irritante.
— Você acha que eu sou idiota, menina? A palavra do Pinguim vale menos que bosta seca. Vocês dois são da mesma laia.
A raiva subiu de vez. Me levantei num impulso, o punho pronto para voar na cara dele. Mas antes que eu encostasse, outro policial me segurou pelos braços, me puxando para trás com brutalidade.
— Eu mudei! — gritei, tentando me soltar. — Não sou mais uma ladra! Eu paguei pelos meus crimes! Será que é tão difícil assim acreditar em alguém?! Qual é o problema dessa cidade, em acreditar na reabilitação de alguém!?
Bullock só fez um sinal com a mão.
— Agride um oficial, vai pra cela. Bem simples.
As algemas prenderam meus pulsos com um clique metálico. Frio. Familiar. Mas nunca deixou de doer. Ele não queria me ouvir. O que não é nenhuma novidade. Mas ainda doeu muito... eu estava fazendo tudo certo pela primeira vez na minha vida. E eles não reconheciam isso, não viam. Na verdade... pareciam não querer enxergar.
Enquanto me arrastavam pelo corredor, respirei fundo. O cheiro de ferro, mofo e desesperança me lembrava de cada canto podre dessa cidade. Duas horas. Foi esse o tempo que passei naquela cela gelada e fedida. Um relógio interno, me avisava quanto tempo se passava, cada minuto pingando como água torturando pedra.
Quando finalmente ouvi o ranger da porta sendo destravada, não senti alívio. Senti irritação.
— Sua fiança foi paga — disse o policial sem emoção.
Claro que foi.
Bullock me esperava do lado de fora da delegacia, mastigando um palito de dente como se aquilo lhe desse alguma autoridade moral. Seus olhos semicerrados fuzilavam Bruce, que me aguardava ao lado da porta, impecável como sempre, a expressão séria, mas sem julgamentos. Me aproximei massageando meus pulsos doloridos.
Infelizmente aquilo remetia a rotina do passado, quando meu nome ainda era Selina. Quando Bruce ainda pagava as fianças dos pequenos furtos que eu fazia. Nessa época ele não sabia que eu era a Mulher-Gato.
— Sr. Wayne — disse Bullock, com um falso tom educado. — Com todo respeito, o senhor devia escolher melhor suas companhias. Essa mulher aí tá arrastando o nome da sua família pro esgoto. Se Thomas estivesse vivo, estaria completamente desapontado-
— Vai se foder, Bullock! — avancei, o corpo impulsionado por um reflexo que eu não controlei, mas Bruce me segurou firme pelo braço, contido, calmo como sempre.
— Tenha um bom dia, detetive — ele disse, como se nada tivesse acontecido.
Ele me puxou suavemente, e caminhamos juntos até o carro dele. Fiquei em silêncio no início, o peito ainda arfando. O mundo parecia querer me dobrar de novo.
— Bruce... Você ainda acredita em mim? — perguntei, encarando o rosto de Bruce através do reflexo do vidro do carro. É difícil olhar diretamente para ele. Ainda sinto vergonha por tudo isso.
Bruce continuou dirigindo por um instante antes de responder.
— Acredito. Não porque quero, mas porque vejo a mudança. Você não é mais a mulher que era, Selinne. Mesmo que os outros não vejam isso ainda... eu sei, e você sabe. Então isso basta.
— E se não bastar? — minha voz saiu falha. — E se o Bullock estiver certo, e eu for só uma bomba-relógio prestes a cometer um deslize outra vez, e levando as pessoas a minha volta comigo?
— Você deve se manter firme nessa sua nova conduta de princípio e ética. Porque essa sua verdade — disse ele, virando para mim por um segundo — E a verdade é mais sólida que qualquer mentira que eles tentem enfiar em você.
Soltei um suspiro longo. Ele estava certo, a verdade sempre prevalece no final, não é?
— Você sempre foi o amigo racional entre nós dois, né?
Ele sorriu de leve.
— Parece que sim.
Quando o carro parou em frente ao meu prédio, Bruce apenas disse:
— Tenho coisas para resolver na mansão. Me avisa se precisar de alguma coisa. Mas te aconselho a não sair de casa esse final de semana... entendeu?
Assenti, sem vontade de vê-lo ir, mas sem forças para pedir que ficasse. Assim que dei um abraço de despedida, saí do carro e ele sumiu virando a esquina. Subi para o meu apartamento e passei um tempo apenas olhando para as paredes, como se esperasse que elas me dissessem o que fazer. Depois organizei tudo: tirei as roupas emboladas do sofá, lavei o que tinha na pia, deixei o lugar um pouco menos caótico. Isis pareceu agradecida quando organizei tudo. Até dei um banho nela, mesmo que eu soubesse o quanto ela odiava. Depois deixei a caixinha de areia dela limpa.



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