14 - Matéria nos Jornais
Sexta-feira. Faltam sete dias para o meu aniversário...
O cheiro de café queimado escapava da cozinha, e eu nem estava com fome, mas tomei um gole amargo só para calar o estômago. Isis, me encarava com seus olhos dourados. Ela sabia que eu não estava tão bem assim, por causa das coisas de ontem. Os gatos sempre sabem quando algo não está certo... O telejornal da manhã passava na minha televisão, ecoando aquelas vozes frias pela sala.
— [...]itens recuperados do assalto à joalheria Delacour: dois anéis, um de ouro maciço e outro de jade. E um colar com pingente de garra, e um outro artefato raro do Museu de história natural... — a imagem tremia, cortada por flashes do que pareciam objetos dispostos sobre uma mesa de perícia. — O artefato, é um totem raro da deusa Bastet. Foi encontrado junto dos outros itens na residência de Bianca Moreno, uma advogada particular, Bianca foi encontrada morta após ingestão de veneno...
A imagem cortou para a entrada do apartamento. Fita amarela na porta, policiais em segundo plano, e o corpo coberto por um lençol branco, sendo retirado.
— [...] a polícia trata o caso como suicídio. A família da vítima afirma que ela vinha enfrentando crises emocionais e estava obcecada por gatos... — e aí veio o soco na minha cara. — ... E eles responsabilizam a Mulher-Gato, ex-criminosa, por sua morte "suspeita", como assim afirma um familiar.
Fiquei imóvel.
Eles sempre escolhem a história mais fácil de acreditar. A que protege os vivos e enterra a verdade com os mortos. Querem jogar a culpa para cima de mim! A repórter continua:
— [...] algumas testemunhas afirmam tê-la visto na joalheria no dia do roubo. Embora sua identidade continue protegida pelas autoridades, o envolvimento da ex-criminosa está sendo investigado...
— Só podem estar de zoação... eles nunca vão mudar as impressões que tem de mim? "Ex-criminosa" pra cá... "Ex-criminosa" pra lá... aposto que estão morrendo de vontade de remover esse "ex"... — murmurei.
Eles nem ao menos mencionam a palavra "reabilitação"... É como se ignorassem de propósito! Eu mudei cacete, por que não me esquecem de uma vez!?
— [...] e o vigilante, Batman, estaria colaborando com a investigação, — continua a repórter. — segundo o detetive Harvey Bullock, a Mulher-Gato e Batman estariam investigando juntos.
A câmera virou para ele. A cara dele era a encarrancada de sempre. Como se o mundo todo fosse seu inimigo. — e com razão, ele é insuportável.
— Olha, se fosse por mim, trancava os dois numa jaula e jogava a chave fora! Esse jogo de "confia em mim, mudei" não cola comigo. Esse morcego se acha um detetive, e fica metendo o nariz nos assuntos da polícia. — resmungou com a voz falhando de raiva. — Não acredito em nenhum dos dois, e o comissário também não deveria. Essa cidade está cheia de malucos fantasiados! Quando isso vai acabar? — ele continuou reclamando ao vivo, apontando quele dedo sujo para a câmera. — É Mulher-gato, Homem morcego, Homem de barro, Mascara Negra, Cara de Cicatriz, Pinguim eu tô é cansado de todos vocês!
Ele tirou o microfone do paletó e saiu andando, xingando algo sobre "a polícia ter mais o que fazer" e "fantasias ridículas". A repórter engoliu seco e tentou continuar como se aquilo fosse apenas mais um dia comum nesse circo sem palhaço.
Eu desliguei a televisão antes dela abrir a boca.
Peguei Isis no colo, sentindo seu ronronar contra meu peito. Aquilo era o mais próximo de calma que existia para mim.
— Eu adotaria todos os gatos do mundo, se pudesse. Só pra evitar que monstros como a Bianca pusessem as mãos em mais algum de vocês.
Ela miou baixo. Um som triste, quase humano. Ela me entende.
A verdade é que a família da Bianca não sabe metade do que ela fazia depois do expediente. Nem imaginam as sessões macabras. As velas e o sangue inocente...
Mas eu sei.
Eu estive lá. Eu vi. E ela não era uma vítima... Se eu soubesse de algo assim no passado... Selina teria adorado fazer uma visita àquela vadia. Assim como os outros criminosos que maltratavam os animais... eu teria feito ela sangrar, ela pagaria por cada vida que tirou!
Bianca era só mais uma das muitas outras pessoas envolvidas nessa seita. Batman e eu precisamos desmascarar cada uma dessas pessoas desprezíveis e fazer elas pagarem caro... muito caro.
A xícara rachou quando a deixei na pia.
Abri a janela. Gotham estava cinza, como sempre. Mas havia algo diferente. Algo que eu não sabia bem explicar... mas meus instintos felinos me alertavam.
(...)
Saí no meio da tarde. Coloquei um casaco leve e tentei fingir que era só mais uma sexta-feira. Que eu era só mais uma mulher indo tomar café e talvez comprar um vestido novo. Eu tinha um pouco de dinheiro guardado, o suficiente para um capricho. Uma peça bonita, talvez vinho ou verde-escuro, algo que combinasse com a noite e não gritasse por atenção. Eu só queria... parecer alguém normal.
Entrei numa cafeteria de esquina, sentei perto da janela. Pedi um café forte, com açúcar, e fiquei observando o movimento da rua, os rostos apressados, os casacos batendo no vento. As pessoas seguiam vivendo. E eu tentava fazer o mesmo...
Depois, andei até uma loja pequena, mas elegante. As vitrines mostravam vestidos belíssimos para uma noite incrível. Eu me vi refletida ali — pálida, cabelo solto e sem brilho.
Acabei escolhendo um vestido preto, sem muita novidade, afinal eu sabia bem quais cores ficam bem no meu corpo. Nele havia um detalhe de renda nas costas, era lindo demais e até meio sexy. Ainda me lembro do meu último aniversário, passei alguns poucos minutos com um telefone entre mim e Bruce, olhando para ele através de um vidro grosso, mesmo que ele tentasse disfarçar, notei um brilho entristecido por causa da minha situação. Ele havia levado um Cupcake cor de rosa, disse que o recheio era de morango, eu sorria boba por ele lembrar de um comentário que fiz no passado sobre isso. No fim não me deixaram comer, e muito menos acender a velinha... mas foi especial, e meio melancólico também.
Sábado será um dia especial, minha história particular de recuperação... Um dia para recuperar o tempo perdido naquela sela. 24 horas a mais para compensar aqueles 10 minutos de ligação...
A moça da loja sorriu com simpatia assim que saí do provador.
— Eu gostei, vou levar esse. — dei uma voltinha.
— Perfeito, algo a mais?
— Não. — me olhei no espelho uma última vez antes de ir tirar.
No caminho até o caixa, entrei sem querer num corredor estreito — produtos menores, maquiagem, itens de cuidados pessoais. Não era meu objetivo, mas meus pés pararam. Meus olhos caíram sobre um delineador preto, finíssimo. Daqueles que saem com um traço limpo, como uma lâmina. E foi aí que senti.
Aquela sensação antiga voltando.
O coração acelerou sem motivo. O corpo ficou leve e quente, como se algo dentro de mim despertasse. Um impulso primitivo e que convivi por anos. A vontade de pegar.
Levar.
Roubar.
As mãos agiram antes que eu pensasse. Os dedos fecharam sobre o delineador com a precisão de quem já fez isso mil vezes. Ninguém por perto. Um ponto cego atrás da câmera no teto. Sabia disso. Era fácil. Fácil demais. Minha mão tremia em volta do objeto.
Olhei para os lados. Ninguém olhando. Ninguém se importando.
Comecei a mover a mão em direção à bolsa.
— Um... — sussurrei, baixo.
Dois.
O sangue pulsava nas têmporas. O mundo parecia girar num ritmo estranho.
Três.
Antes que meus dedos tocassem o zíper da bolsa, eu devolvi o item de volta à prateleira. Rápido. Sem hesitar. Sem pensar muito. Esse é meu novo truque. Conto até três. E devolvo antes de chegar lá. Respirei fundo. O cheiro de plástico e perfume barato me enjoou. Afastei-me do corredor como se ele tivesse dentes.
Não olhei para trás.
Fui direto ao caixa, entreguei o vestido, paguei à vista.
— Você escolheu bem... — a moça do caixa sorriu se referindo ao vestido.
— Você não faz ideia... — Sorri com os lábios, mas não com os olhos.
Saí da loja com o vestido na sacola e o gosto amargo de quase ter cedido à tentação. Eu não precisava daquilo realmente, mas a sensação do coração disparando... a adrenalina de quase ser pega era fatal... Fatalmente tentadora. Hoje eu venci... mas e amanhã?



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