11 - Gosta de Gatos?
No último andar da boate, o corredor estreito estava tomado por capangas. Homens armados se posicionavam em fileiras, prontos para impedir qualquer avanço. No fundo, a porta metálica é de Dmitri Valev.
Selinne e Batman pararam lado a lado.
— Bat... — Selinne murmurou como um pedido silencioso.
— Cat?...
Eles trocaram aquele olhar rápido.
E então, atacaram.
Selinne foi a primeira a se mover, veloz. Saltou contra dois homens, derrubando um com um chute na garganta e o outro com uma cotovelada no nariz. Batman avançou logo atrás, bloqueando um golpe e revidando com sua força brutal. Um capanga voou direto para os pés de Selinne, que aproveitou o impulso para pisar no peito dele e se jogar contra outro.
Eles lutavam em parceria, empurrando um capanga para o outro. Quando um errava o tempo de agir, o outro corrigia. Quando um era cercado, o outro surgia para limpar o caminho.
Selinne puxou o braço de um capanga para girá-lo no ar e o lançou na direção de Batman, que o derrubou com um soco curto. Batman segurou dois inimigos pelas jaquetas e os jogou contra a parede, abrindo passagem para Selinne avançar. O som dos golpes, dos corpos caindo, das armas batendo no chão e a música de fundo — há alguns andares, — tornava o momento belo.
Em poucos minutos, o corredor estava limpo. Nenhum dos homens de Valev permaneceu de pé.
— Ainda acha que não somos uma boa dupla?... — Selinne provocou com um sorriso sedutor. — Quando vai admitir?
Batman deu um sorriso curto, e avançou em direção à porta.
Ele empurrou a porta da sala com firmeza. Do outro lado, Devin Marks já os esperava, com uma pistola em mãos. Ele não apontava ainda, mas estava pronto para reagir. No centro do ambiente, Dmitri Valev, sentado atrás de uma mesa grande e cheia de notas de dólares, observava tudo com um leve sorriso no canto dos lábios.
— Olha só quem veio me visitar — disse ele, inclinando o corpo para a frente. — Gotham não tem mais psicopatas para você caçar, Batman?... Ah, é claro... você costuma se livrar deles ou garantir que não possam mais andar... — zombou. — Resolveu invadir boates agora?
Selinne deu um passo à frente, os olhos fixos em Devin.
— Não viemos por você, senhor Valev. Viemos por ele.
Ela ergueu o dedo, apontando diretamente para Devin.
O sorriso de Valev se manteve, mas os olhos endureceram. Batman não respondeu.
Devin deu um passo instável para trás, a mão tremendo ao apontar a arma.
— Eu... eu não sei do que vocês estão falando.
Batman avançou, calmo, mas com aquele olhar de gelar a alma.
— Gosta de gatos?
Aquela pergunta fez Devin engolir seco. Seus olhos saltaram de Batman para Selinne, e o desespero explodiu.
— E-eu vou atirar nela! Se não me deixarem sair, eu juro que atiro!
O dedo dele se movia pelo gatilho, mas não rápido o bastante. O punho de Batman se contraiu. Uma Batlâmina voou como um disparo e atingiu a mão de Devin com precisão. A arma foi lançada ao chão com um baque metálico.
Dmitri Valev se levantou da cadeira, os olhos estreitos.
— O que é isso tudo, Devin?
Devin cambaleou até a parede, tentando recuperar o fôlego.
— Eu... entrei pra uma seita. É só isso! Minha religião não é da conta de ninguém!
Batman se aproximou, agarrou o capanga pela frente da camisa e o prensou contra a parede. O olhar se tornou uma sentença fria. A voz saiu áspera, grave e vazia de paciência.
— Quais são os planos da seita? Por que querem ela?
Devin estremeceu. Um filete escuro desceu por sua calça jeans. Mijo.
— Eu só seguia ordens. Eles queriam recuperar o traje... da nova Mulher-Gato. Era pra ser só isso. Mas aí... vocês apareceram lá. E... tivemos que tentar levá-la junto. Não era o plano original, não estava nos planos. Eu juro!
Selinne deu um passo à frente.
— Uma mulher de máscara falou comigo. Quem era ela?
Devin hesitou. O silêncio pareceu mais arriscado que qualquer resposta.
Batman apertou o colarinho, elevando o sujeito alguns centímetros do chão.
— Responda à pergunta.
— Eu não sei! Ninguém sabe quem é quem! Todos usam codinomes, máscaras, vozes distorcidas... A identidade de cada membro é secreta. Só os recrutadores sabem mais. E... são seis líderes. Você não vai até eles. Eles vêm até você.
Selinne cerrou o punho, as unhas cravando a palma. A respiração ficou pesada, e os olhos brilhavam agora com fúria.
— E o que eles querem comigo?! — ela estreitou os olhos, se aproximou mais. — Por que eu?
Devin desviou o olhar. Quando voltou a encarar Selinne, havia algo diferente. Não era só medo. Era rendição.
— Tudo o que sei, é que queremos você.
O silêncio se instalou como uma bomba prestes a explodir. Devin não disse mais nada. Só baixou a cabeça, derrotado.
— Você sabe mais!
Selinne se moveu antes que alguém pudesse impedir. Empurrou Batman como se a parceria de antes fosse inexistente. Ela segurou Devin pelos ombros e o arrastou em direção à janela aberta. O vidro refletia a cidade lá embaixo, ela iria arremessá-lo.
— Você deve saber de mais alguma coisa! Anda, desembucha, seu desgraçado! — gritou. — Como você segue ordens e se mete com essa gente sem saber nada!? Me fala, seu mentiroso!
Ela o empurrou com força mais ainda. Devin gritou, os pés escorregando no tapete do escritório. Um empurrão a mais e teria caído no asfalto.
Mas uma mão firme pousou sobre o ombro dela.
— Chega. Controle-se.
— Não! — ela empurrou a mão com o ombro. Hostil. — Ele deve saber de mais alguma coisa...! Eu não acredito que ele seja só um peão... — os olhos dela brilharam com um vermelho perigoso.
— Se ele soubesse, já teria dito. — Batman se manteve firme em seu tom. — Olha pra ele, se borrou todo.
A mão de Selinne se fechou com tamanha força na gola de Devin, que rangiam com força.
Batman a puxou de volta. Os olhos dela ardiam em direção a ele. Ele a encarou por um instante, como se desse uma ordem silenciosa, um olhar que somente ela poderia entender. Ela não disse nada ao ver aquele olhar. Apenas virou o rosto.
Devin caiu no chão, chorando, o corpo tremendo.
— Por isso não te aceitaram nos Lobos de Arkhangelsk... — murmurou Valev com ironia.
Selinne virou de costas indo em direção à saída.
— Eu me demito — rosnou, sem sequer lançar um último olhar para Valev.
O empresário permaneceu em silêncio por um instante, observando-a desaparecer pela porta. Depois, virou-se para Batman com um meio sorriso sem humor.
— Pode levar o Devin. Não quero um capanga envolvido em seitas por aqui... Pode não parecer mas sou da igreja.
Batman se aproximou, a capa arrastando atrás de si.
— Você será o próximo a estar atrás das grades, não pense que as coisas que vi lá em baixo passarão despercebidas por mim. — semicerrou os olhos. — Valev.
Valev não respondeu. Apenas ficou parado, fingindo calma, enquanto RedBat se afastava com Devin quase arrastado pela gola do paletó.
Lá fora, o carro de Montoya aguardava, encostada na calçada. A policial observava com os braços cruzados, o rosto cansado. Quando viu quem vinha, destravou as algemas e se adiantou.
— Aqui está mais um — disse Batman, empurrando Devin com firmeza.
— Outro lunático? — Montoya ergue uma sobrancelha ao notar o estado do sujeito.
— Mais que isso. Um lunático com ligações a uma seita, avise Gordon. Quanto à boate, está cheia de drogas ilícitas e prostituição disfarçada de dançarinas.
Montoya suspirou, já colocando as algemas em Devin, que não resistia mais a nada.
— É só mais uma das dezenas de boates, na lista suja de Gotham. Mas tudo bem. Vamos começar essa semana por essa.
Ela o colocou no banco traseiro e fechou a porta com força.
Do outro lado da calçada da boate, o Batmóvel escuro e reluzente, esperava. Selinne estava encostada ao lado dele, os braços cruzados, o olhar perdido em algum ponto acima dos prédios. Batman se aproximou, silencioso, os passos calmos.
— Você quase o empurrou.
Ela olhou para ele.
— Que diferença faria? Ele não morreria mesmo.
— Mas teria se machucado.
Ela riu, uma risada seca e irônica.
— Você costuma fazer piadas nas entrelinhas, não é?
No primeiro momento Batman não reagiu, mas então sorriu de canto.
— Parece que para você, não há necessidade de usar uma bomba atômica num rato...
Batman inclinou a cabeça, ignorando o comentário.
— O anel.
Selinne fechou os olhos, exalando o ar com lentidão. Então pegou o anel dentro do decote, olhou fixamente para ele, e para o relevo marcado.
— Encontrei na mão de um figurão... — ela ergueu os olhos para ele. — Me assistia dançar, estava hipnotizado com a minha beleza e sedução... Familiar?
— Foco.
— Era Falcone. — ela inclinou a cabeça.
Batman estreitou os olhos.
— Então o roubou? Vai se meter em problemas quando ele perceber.
— Isso já é roubado. Eu pesquisei, faz parte do acervo roubado daquela joalheria. — ela mostrou o anel. — Agora podemos ir lá, confrontar ele?
Batman olhou a rua fria.
— Amanhã.
— Tudo bem... Mas vai me encontrar e me avisar mesmo? Não vai resolver tudo sozinho... Né?
— Se ligar para Bruce e aceitar o emprego, posso pensar nisso.
Ela revirou os olhos.
— Eu ligo...
— Se não ligar, eu vou saber. — ele abriu a porta do Batmóvel.
— Como você sempre sabe de tudo ao meu redor?
Ele parou antes de entrar. Sorriu.
— Sou um bom detetive. Agora entra, vejo que está frio.
Selinne sorriu provocante, mordeu o lábio e entrou no Batmóvel junto dele.
— Você poderia me esquentar...
Ele olhou para ela, sem reação clara.
— Brincadeirinha... Você perdeu esse privilégio. — ela riu.
Batman ligou o veículo.
Ela o encarou por mais alguns segundos.
— Você queria! — declarou.
Ele a olhou de soslaio.
— Não falei nada.
Selinne bufou.
— Nem precisou...



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